Revista LiteraLivre 17ª edição | Page 195

LiteraLivre Vl. 3 - nº 17 – Set./Out. de 2019 Marione Cristina Richter Venâncio Aires/RS Entre quatro paredes Sempre que ouço falar de preconceito contra a comunidade LGBTQ+ fico me questionando onde está a lógica de se ter preconceito contra alguém que não seja declaradamente hétero. Não que algum preconceito tenha lógica, mas ser hétero ou não tem a ver com a intimidade da pessoa. O que ainda acho pior é que agora toda esta intimidade, que deveria ser particular, se transforma a cada dia em uma letra a mais, em um alfabeto já embaralhado, que é abreviado com um “+”. Me desculpem a todos vocês, mas eu vou continuar julgando as pessoas pelo seu caráter. Mas, e se formos julgar as pessoas, todas elas, pelo que fazem em sua intimidade, e isto não condizer com aquilo que cada um acha, e só acha, o que é o correto a se fazer, eu me pergunto, quantos héteros se escapariam ilesos da fogueira? Pensando nisso imaginei a seguinte situação: Um grande empresário, superexigente com relação à qualidade de seus funcionários, se dedica pessoalmente a avaliar os currículos dos candidatos, que junto com seus currículos devem preencher uma ficha cadastral onde em determinado ponto devem declarar suas preferências sexuais. Só neste quesito, quem não for hétero, já é desclassificado. E começa a avaliação. Primeiro currículo: Andréia Mendes, 32 anos, formada em Harvard, com doutorado, experiências em grandes empresas multinacionais, casada, um filho, blá, blá, blá, blá, orientação sexual: hétero, preferência sexual: sexo oral. Primeiro silêncio, seguido de consternação e após a explosão: — Onde já se viu, bem capaz que vou contratar uma boqueteira para trabalhar para mim. Não tem respeito pelo filho. Lixeira, próximo currículo: Carlos Oliveira, 30 anos, formado em uma universidade federal, com especialização no exterior, com boa experiência, solteiro, blá, blá, blá, orientação: hétero, preferência sexual: sexo anal. — Credo! Começa pegando mulher assim depois vai para os homens. Não passa de um traveco enrustido, pois se fosse um hétero descente não fazia isso. Não serve para trabalhar para mim, onde está o profissionalismo. É tudo culpa dessas novelas. [192]