LiteraLivre Vl. 3 - nº 17 – Set./Out. de 2019
Os passos macios aproximavam-se. Sentiu-os mais perto. Agora, estava
certo de que alguém se introduzira na câmara real. Era tempo de agir. A sua mão
alcançou o tamborete, tateou, mas nada encontrou. A lâmina de duplo gume não
estava onde a tinha posto. Uma onda gelada percorreu-lhe o corpo. O seu
coração acelerou e batia ruidosamente, abafando o som dos passos. Teve de
fazer um esforço de disciplina para não ofegar, nem se agitar, o que poderia
desencadear o ataque do intruso. Percebeu uma sombra acocorada no chão, a
uns três passos de distância. Soube então de onde vinha a ameaça. Tinha de
aproveitar essa pequena vantagem.
Num só movimento de animal acossado, rodou o corpo para a esquerda,
meteu a mão sob a almofada, empunhou a adaga, que sempre o acompanhava e,
de um salto, abateu-se sobre o vulto, cravando-lhe a lâmina com quanta força
tinha. Bradou então pela Guarda. Dez homens entraram de rompante na câmara
real. À luz dos archotes que alguns empunhavam, os guardas depararam com um
rei lívido, de olhar incrédulo fixado na tartaruga marinha oferecida nessa manhã
pelo embaixador da Lídia, e que exibia uma adaga espetada no alto da carapaça.
Na noite seguinte, cansado e humilhado, Zidanta deitou-se cedo. Antes de
adormecer, ainda vislumbrou um brilho fugaz na lâmina do machado, empunhado
pelo seu filho Ammuna, quando se abateu sobre si a zunir e o decapitou. No meio
da névoa de dor e assombro que o envolveu, num último lampejo de consciência,
admirou-se de não ter ouvido passo algum.
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