LiteraLivre Vl. 3 - nº 17 – Set./Out. de 2019
Joaquim Bispo
Odivelas, Portugal
Passos
Naquela noite, quando Zidanta ouviu passos, soube que era o Grande
Ceifeiro que já o procurava. Sempre acreditara que viria assim, furtivo e
impiedoso; só não sabia quando.
Zidanta, o Grande Rei dos Hititas, o favorito do deus Tarhun, estava velho. Já
não podia encabeçar o temível exército de carros e ir ao Sul submeter um
príncipe sírio ou fazer recuar os Hurritas no Médio Eufrates. Já raramente visitava
alguma das suas rainhas. Mantinha-se no seu palácio de Hattusa, recebia
comissões de comerciantes assírios, que queriam negociar no seu reino, ou
embaixadas de alguma pequena corte, a reiterar submissão e a pedir proteção
contra inimigos regionais. Nesses dias, sentava-se junto a uma janela, assistia à
entrada das comitivas pela colossal Porta dos Leões e, depois, assumindo uma
postura grave e reservada, esperava-as na sala do trono, ladeado pelo Grande
Escriba e seus funcionários.
Os passos, já! O velho guerreiro estava reclinado na sua câmara de dormir,
amodorrado, mas de ouvido alerta, quando os ouviu. Eram suaves e furtivos.
Mesmo pouco audíveis, Zidanta percebeu-os, por entre os outros ruídos de
passos da Guarda, que, pausadamente, fazia a ronda noturna à volta dos
aposentos reais. Só um inimigo se deslocaria assim.
Num relance, recordou a curta história do seu reino, em que os soberanos
acabavam, muitas vezes, por sucumbir a revoltas, traições e golpes palacianos,
que não poupavam sequer o resto da família. Fora assim com o rei Mursili, seu
tio, massacrado por si e pelo próprio cunhado Hantili, seu sogro, o qual também
veio a ter a mesma sorte: após vários anos de reinado, morreu às suas mãos,
juntamente com o filho, netos e todos os que podiam ter pretensões ao trono.
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