Revista LiteraLivre 17ª edição | Page 131

LiteraLivre Vl. 3 - nº 17 – Set./Out. de 2019 Jeremias Comaru Fortaleza/CE Qe a chuva traga Um sereno matutino. Chuva fraca com sol e seus maus presságios. Dizem que chover é verbo defectivo, mas, de fato, choveu. Foram sete dias de expiação para Anahita. A porta que rangia, naquela manhã, não rangeu. Seria pela umidade? Talvez. Pedro entrou, mas não ousou seguir adiante. Sua chegada deveria ter causado certo alarde. Não aconteceu, estancou. Sua mala estava ali. Olhou mais à frente e viu sua mulher sentada. Aproximou-se para beijar a esposa. Ela deveria estar zangada, mas, na verdade, parecia melancólica. Não a beijou. Tirou os sapatos, empurrando-os um contra o outro, para logo arremessá-los bem para o canto da sala. Melhor não o tivesse feito. Formou-se um rastro molhado e, no canto, uma poça. Não entendia porque Anahita não o enchia de perguntas, acusações e injúrias após uma viagem longa e sem contato. Preocupou-se com a reação de puro espanto e curiosidade da esposa que ora olhava para o chão, ora para o teto. Sereno, Pedro manteve o controle e desaguou todas as histórias que havia criado para iludir Anahita. Queria demonstrar o quão cansativa havia sido sua viagem. Era uma torrente de mentiras camuflada por meia-verdades e fatos legítimos. Imperfeito! Como sempre, omitia a vida boêmia e suas relações extraconjugais. A mala não saiu do lugar. O céu ainda estava claro. Mudaria. Para Pedro, a mulher contentava-se com aqueles embustes de sempre, mas, dessa vez, não lhe dirigiu a palavra. Sentiu-se uma atmosfera turbulenta. Finalmente, Anahita olhou para ele, atravessando-o. Sobre a mesa estavam uma pequena faca, uma xícara de café emborcada e um envelope amarelo aberto. Quantas sensações! Era como se ele pudesse sentir o aroma do café. Pedro lembrou-se do pai que fora assassinado com uma faca de pão pela concubina ciumenta. Profetizou algo de ruim, mas a recordação das próprias aventuras amorosas dominou-lhe a atenção e tais pensamentos escorreram para a vala do esquecimento. Precipitou-se. Distraído por aquelas divagações, o marido não se deu conta da saída de Anahita. Na mesa, jazia o envelope amarelo. Nele, a certidão de óbito de Pedro. Sete dias de luto. Bateu forte sobre a mesa e encharcou tudo. Ouviu-se um forte trovão e o céu ficou escuro. Então, Pedro seguiu adiante, não estancou. Não foram ouvidos gritos de histeria por sua partida. A porta não rangeu nem abriu. Pedro saiu. Choveu. jeremiascomaru@gmail.com [128]