LiteraLivre Vl. 3 - nº 17 – Set./Out. de 2019
Jeremias Comaru
Fortaleza/CE
Qe a chuva traga
Um sereno matutino. Chuva fraca com sol e seus maus presságios. Dizem
que chover é verbo defectivo, mas, de fato, choveu.
Foram sete dias de expiação para Anahita. A porta que rangia, naquela
manhã, não rangeu. Seria pela umidade? Talvez. Pedro entrou, mas não ousou
seguir adiante. Sua chegada deveria ter causado certo alarde. Não aconteceu,
estancou. Sua mala estava ali. Olhou mais à frente e viu sua mulher sentada.
Aproximou-se para beijar a esposa. Ela deveria estar zangada, mas, na
verdade, parecia melancólica. Não a beijou. Tirou os sapatos, empurrando-os um
contra o outro, para logo arremessá-los bem para o canto da sala. Melhor não o
tivesse feito. Formou-se um rastro molhado e, no canto, uma poça.
Não entendia porque Anahita não o enchia de perguntas, acusações e
injúrias após uma viagem longa e sem contato. Preocupou-se com a reação de
puro espanto e curiosidade da esposa que ora olhava para o chão, ora para o
teto.
Sereno, Pedro manteve o controle e desaguou todas as histórias que havia
criado para iludir Anahita. Queria demonstrar o quão cansativa havia sido sua
viagem. Era uma torrente de mentiras camuflada por meia-verdades e fatos
legítimos. Imperfeito! Como sempre, omitia a vida boêmia e suas relações
extraconjugais.
A mala não saiu do lugar. O céu ainda estava claro. Mudaria. Para Pedro, a
mulher contentava-se com aqueles embustes de sempre, mas, dessa vez, não
lhe dirigiu a palavra. Sentiu-se uma atmosfera turbulenta. Finalmente, Anahita
olhou para ele, atravessando-o.
Sobre a mesa estavam uma pequena faca, uma xícara de café emborcada e
um envelope amarelo aberto. Quantas sensações! Era como se ele pudesse sentir
o aroma do café. Pedro lembrou-se do pai que fora assassinado com uma faca de
pão pela concubina ciumenta. Profetizou algo de ruim, mas a recordação das
próprias aventuras amorosas dominou-lhe a atenção e tais pensamentos
escorreram para a vala do esquecimento. Precipitou-se.
Distraído por aquelas divagações, o marido não se deu conta da saída de
Anahita. Na mesa, jazia o envelope amarelo. Nele, a certidão de óbito de Pedro.
Sete dias de luto. Bateu forte sobre a mesa e encharcou tudo. Ouviu-se um forte
trovão e o céu ficou escuro. Então, Pedro seguiu adiante, não estancou. Não
foram ouvidos gritos de histeria por sua partida. A porta não rangeu nem abriu.
Pedro saiu. Choveu.
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