LiteraLivre Vl. 3 - nº 16 – Jul./Ago. de 2019
Era como se o corredor se alongasse, postergando o que viria a seguir. Num
esforço de pesadelos, abro a porta.
Na porta, uma figura espectral de olhos incandescentes a dar luz à escuridão.
Que em tom gutural diz:
— Vim trazer sua Leonora para mais uma noite.
— Quem é o senhor?...
— Quem sou eu?... Deveria saber. Eu sou Belzebu o Príncipe das Moscas!
Ei-la, os lábios vermelhos se contraindo contra os dentes perfeitamente
brancos. A pele alva como o um alfenim sob um capuz preto. Dos olhos negros
grandes e sérios brotam faíscas que mais parecem brasas. Estranhamente, estão
mais vivos do que nunca; não me olham, invadem minha alma. Os cabelos, da
mesma cor dos olhos, lhe caem até a metade das costas, lisos. O vestido é o
mesmo com que eu a enterrei. Eis meu cadafalso.
Já não sei se estou acordado, vivo ou morto. O pensamento pesado de
transgressões e remorsos como um navio cargueiro se misturam em minha
mente. O peito aos pedaços. Dilacerado. Meu coração é forte, meus
ressentimentos é que me doem! Sua rouca e tenebrosa voz uiva dentro dos meus
tímpanos:
— Se em vida fui para ti um tormento, morrendo eu serei tua morte.
— Não chegue perto de mim. – eu grito.
Mas ela se aproxima e eu já sinto suas mãos. E a esganadura no meu
pescoço. Quando por fim ela cortou minhas forças e embrulhou-me em seu
manto.
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