LiteraLivre Vl. 3 - nº 15 – Mai./Jun. de 2019
E lá se ia a professora pra casa, preocupada com as perguntas que ouvia
em sala, mas feliz em ser-lhes útil.
Chegando em casa, Túlio, seu filho, já a esperava;furioso, agitado, queria
dinheiro para sair e como ela questionava o motivo, ele a afrontava, agredindo-a
verbalmente e, sozinha, perguntava-se por onde andava o marido. Temendo uma
atitude mais agressiva do filho,dava o dinheiro, mesmo sabendo que serviria para
sua destruição.
No outro dia, chegara cansada à escola, mas, mesmo assim, carinhosa e
atenciosa com seus alunos. Hoje daria a eles produção de texto, mandá-los-ia
fazer uma redação sobre suas férias e depois pedi-los-ia para ler ao o restante da
classe, assim poderiam interagir com os colegas e ao mesmo tempo
desenvolverem a leitura.
Em geral, as redações ficaram parecidas, contavam sobre suas viagens,
suas diversões, mas uma, em especial, chamara sua atenção. Era a redação de
João Vitor, em que retratava que suas férias foram, basicamente, acompanhando
toda semana sua mãe à delegacia. Aparentemente, seu irmão mais velho estava
tendo problemas com tráfico de drogas, homicídio e algumas outras denúncias,
ainda não comprovadas, acerca de estupro. Ele já tinha várias passagens na
polícia.
João Vitor observava, vergonhosamente, que a sala o encarava, assustados,
e perguntou á professora:
- O que você acha que deve acontecer com meu irmão, em sua opinião, tia?
Pois vejo minha mãe chorar noites e noites, implorando para que não
prendessem meu irmão, que ele era uma boa pessoa.
- Olha João, acredito muito na justiça e acredito que tudo que a gente faz de
errado com as pessoas, a gente tem que pagar, assim deve ser. Se não aprende
em casa, que vá aprender na cadeia então, da pior forma e os pais têm que
compreender isso. Fez mal aos outros, existe a lei para puni-los por isso.
- Mas, tia, e se meu irmão fosse seu filho?
Silêncio.
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