Revista LiteraLivre 15ª edição | Page 196

LiteraLivre Vl. 3 - nº 15 – Mai./Jun. de 2019 E lá se ia a professora pra casa, preocupada com as perguntas que ouvia em sala, mas feliz em ser-lhes útil. Chegando em casa, Túlio, seu filho, já a esperava;furioso, agitado, queria dinheiro para sair e como ela questionava o motivo, ele a afrontava, agredindo-a verbalmente e, sozinha, perguntava-se por onde andava o marido. Temendo uma atitude mais agressiva do filho,dava o dinheiro, mesmo sabendo que serviria para sua destruição. No outro dia, chegara cansada à escola, mas, mesmo assim, carinhosa e atenciosa com seus alunos. Hoje daria a eles produção de texto, mandá-los-ia fazer uma redação sobre suas férias e depois pedi-los-ia para ler ao o restante da classe, assim poderiam interagir com os colegas e ao mesmo tempo desenvolverem a leitura. Em geral, as redações ficaram parecidas, contavam sobre suas viagens, suas diversões, mas uma, em especial, chamara sua atenção. Era a redação de João Vitor, em que retratava que suas férias foram, basicamente, acompanhando toda semana sua mãe à delegacia. Aparentemente, seu irmão mais velho estava tendo problemas com tráfico de drogas, homicídio e algumas outras denúncias, ainda não comprovadas, acerca de estupro. Ele já tinha várias passagens na polícia. João Vitor observava, vergonhosamente, que a sala o encarava, assustados, e perguntou á professora: - O que você acha que deve acontecer com meu irmão, em sua opinião, tia? Pois vejo minha mãe chorar noites e noites, implorando para que não prendessem meu irmão, que ele era uma boa pessoa. - Olha João, acredito muito na justiça e acredito que tudo que a gente faz de errado com as pessoas, a gente tem que pagar, assim deve ser. Se não aprende em casa, que vá aprender na cadeia então, da pior forma e os pais têm que compreender isso. Fez mal aos outros, existe a lei para puni-los por isso. - Mas, tia, e se meu irmão fosse seu filho? Silêncio. 193