LiteraLivre Vl. 3 - nº 15 – Mai./Jun. de 2019
Silêncio
Clarice de Assis Rosa
Ituiutaba-MG
Jane levantou-se animada naquela manhã, já planejando a sua aula e
lembrando-se do rostinho de cada aluno seu. Como ela gostava de crianças e
como ela desempenhava seu papel de professora com prazer. Estar com eles a
fazia esquecer todos os outros problemas; os dissabores com o marido, as
dificuldade que enfrentava com seu filho adolescente. Naquele momento tudo era
alegria; preparava muitas dinâmicas, gostava de conversar, cantar, brincar com
seus meninos em sala de aula. Fazia o que realmente gostava e eles adoravam-
na por isso. Enxergavam-na muito além que uma simples professora.
Da mesma forma que ela ansiava em estar com eles, estes também não
viam a hora de ir à escola. Eram crianças que tinham entre 5 e 7 anos de
idade.Muitos não tinham atenção em casa, os pais estavam sempre ocupados,
trabalhando ou simplesmente não tinham tempo para perder com os filhos;
outros eram hostilizados em casa e necessitando de carinho, cuidado, alguém
que pelo menos os escutassem, desejavam estar logo com a tia Jane..
Jane sempre os tratava com individualidade, conversando com aquele aluno
mais quietinho, reprimido, que parecia triste, mas querendo se abrir e deixando
de lado por alguns momentos aquele que, sentado no fundo da sala, com muita
rebeldia e agressividade, tratava mal aos colegas e à professora, quando esta
tentava aproximar-se. Para esses ela usava uma metodologia diferenciada, e
conhecia o momento oportuno de se aproximar; ouvia com atenção os alunos
queixosos, reclamando de algum problema em casa e sempre tentava minimizar
a situação, explicando da forma que fosse menos traumática para a idade da
criança.
E assim as aulas eram sempre prazerosas e rendiam. Jane conseguia fazer
com quem seus alunos aprendessem brincando, sem que nada fosse imposto
como obrigação. Sentira como se tivesse nascido pra isso e a cada aula era uma
surpresa diferente, conforme a espontaneidade de cada um.E ela adorava isso.
- Tia, hoje meu pai brigou com minha mãe, falando que ela tinha um
amante, o que é um amante?
- Gabi, às vezes, as pessoas adultas têm momentos de raiva e não pensam
antes de falar as coisas. Certamente, seu pai deveria estar chateado com algum
problema no trabalho ou em casa e acabou falando coisas que não deveria ter
falado. E sendo sua mãe a pessoa mais próxima dele, acaba sobrando pra ela.
Mas não dê importância, são assuntos de gente grande e todos nós temos
problemas, você também não fica chateada com algum colega às vezes, e fala
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