LiteraLivre Vl. 3 - nº 14 – Mar./Abr. de 2019
Buraco
Aparecida Gianello dos Santos
Martinópolis/SP
A cor preta, predominante em seu dorso, contrastava apenas com um branco
nuvem, que ia das extremidades à barriguinha e se alastrava por debaixo do
pescoço até contornar o focinho. Por fim, um naco do mesmo branco na pontinha
do rabo. Esta é Lessie, meu presente especial, minha esperta companheira de
todas as horas.
Sempre vi os religiosos com profundo respeito e admiração, como se fossem,
sem exceções, seres especiais neste mundo. Um dia, um deles me questionou se
eu já tinha algum bichinho de estimação e se eu não poderia cuidar do seu, uma
vez que levava uma vida corrida, com uma agenda lotada de compromissos,
enfim. Oportunamente, vi nisso um meio acertado de aproximação. Tudo o que
eu mais queria naquele tempo era figurar em seu seleto rol de amizades. Não
pensei duas vezes...
Não pensei na trabalheira, não pensei nas despesas, não pensei ainda no quanto
me prenderia àquela criaturinha. Logo eu, que já vinha carregando as
consequências de uma recém-cometida-besteira-dupla, adotadas havia um ano.
Caí no golpe, ou melhor, no conto do vigário. Logo, a besteira passou a ser tripla.
Por aquele nobre feito (para não dizer puta besteira), não ganhei mais que um
simples obrigado de sua parte, o que era natural. Já a tão presumida amizade,
essa, eu nunca tive. Um pouquinho de consideração, quem sabe.
Só agora percebo o quanto fui egoísta e, ao mesmo tempo, abençoada nessa
besteirada toda. Eu, que quis tanto ter por perto um ser especial, acabei por
conviver com um anjo (de quatro patinhas, rabo e focinho). Atrevo-me até a
dizer, sincera e festivamente: obrigada, meu Deus, por ter me confiado tamanho
presente. Se ainda penso em uma aproximação ou mesmo amizade com um
daqueles seres? Não mais... Pelo que já aprendi a reconhecer quem são de fato
especiais.
Hoje, após treze anos juntas, Lessie, que amava cavoucar, acaba de me
surpreender com o maior de todos os buracos. Desta vez, não no gramado.
45