Revista LiteraLivre 14ª edição | Seite 176

LiteraLivre Vl. 3 - nº 14 – Mar./Abr. de 2019 Regressão Penelope Jones Curitiba/PR Sobraram poucas lembranças do que foram. Na regressão a dois se viram pescando bagres gigantes em um barco na foz do Mekong. Se amaram sob o luar vietnamita, sem se importar com os olhares dos ribeirinhos que, indignados com aqueles dois homens sobre o rio acalmado, tomaram a justiça e os arpões nas mãos e limparam a honra das águas com o sangue dos profanadores. As dores no rosto, as mãos dadas apertando-se em igual intensidade e paixão. Eram romanas adúlteras que se amavam em segredo nos dias em que os maridos partiam para os lupanários de Pompeia. No calor da paixão desenfreada, dos seios em riste roçando prazeres, dos beijos molhados, dos sexos grudados, vertendo gozo e amor, não ouviram os primeiros gritos, as primeiras explosões. Quando deram por si, se olharam, sem lágrimas, sem desespero. Se abraçaram. Morreram em um último beijo sob as lavas e as cinzas do Vesúvio em festa, viraram estátua, história, lenda, amor eternizado no terror da morte. Agora se esvaíam em lágrimas, o passado escancarava as feridas, o sangue vertia tudo que não puderam ser. Despertaram do transe, se olharam. Desta vez Carla não fugiu do beijo escorrido pela boca. Maria não precisou roubá-lo. Saíram da sala entregues a elas mesmas, a uma história renovada, longe dos mares vietnamitas, da ira vulcânica, perto demais dos dias para serem felizes. 173