LiteraLivre Vl. 3 - nº 14 – Mar./Abr. de 2019
Regressão
Penelope Jones
Curitiba/PR
Sobraram poucas lembranças do que foram. Na regressão a dois se viram
pescando bagres gigantes em um barco na foz do Mekong. Se amaram sob o luar
vietnamita, sem se importar com os olhares dos ribeirinhos que, indignados com
aqueles dois homens sobre o rio acalmado, tomaram a justiça e os arpões nas
mãos e limparam a honra das águas com o sangue dos profanadores. As dores
no rosto, as mãos dadas apertando-se em igual intensidade e paixão. Eram
romanas adúlteras que se amavam em segredo nos dias em que os maridos
partiam para os lupanários de Pompeia. No calor da paixão desenfreada, dos
seios em riste roçando prazeres, dos beijos molhados, dos sexos grudados,
vertendo gozo e amor, não ouviram os primeiros gritos, as primeiras explosões.
Quando deram por si, se olharam, sem lágrimas, sem desespero. Se abraçaram.
Morreram em um último beijo sob as lavas e as cinzas do Vesúvio em festa,
viraram estátua, história, lenda, amor eternizado no terror da morte. Agora se
esvaíam em lágrimas, o passado escancarava as feridas, o sangue vertia tudo
que não puderam ser. Despertaram do transe, se olharam. Desta vez Carla não
fugiu do beijo escorrido pela boca. Maria não precisou roubá-lo. Saíram da sala
entregues a elas mesmas, a uma história renovada, longe dos mares
vietnamitas, da ira vulcânica, perto demais dos dias para serem felizes.
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