Revista LiteraLivre 14ª edição | Page 159

LiteraLivre Vl. 3 - nº 14 – Mar./Abr. de 2019 Nestor fecha os olhos. Quer emoldurar, na memória, aquele rosto. Quando os reabre, ela não está mais ali. Silenciosa, voltou ao descanso. E ele, num turbilhão de pensamentos. Continua mais forte que a droga que lhe foi injetada. De repente, o peito inicia um repique. Batidas aceleradas do coração provocam certa confusão nas ideias, parece que o corpo todo estremece, uma onda de calor insuportável percorre as veias, queima. Depois, abranda. Chega um frio abominável, insano. Ele sabe que são as asas na constante luta pelo voo. Devem carregar o cansaço acumulado por tantos anos. Puxa vida, tem ainda tanta coisa para pensar! Mas está confuso. Não consegue conectar o fio do pensamento que estava por ali, com ele, ainda há pouco. E sente um cansaço incontrolável, os olhos pesam, as ideias fogem. Nem ouve mais o ressonar de Leninha. O gotejar cessa. O dia ainda nem clareou e o soro foi retirado. Leninha tem a certeza da qual tanto se esquivara. Ele não está mais ali. O velho pássaro pousou. 156