LiteraLivre Vl. 3 - nº 14 – Mar./Abr. de 2019
Marias…
Patty Ciorfi Freitas
São Paulo/SP
Mal o dia amanhecera o cheiro do bolo já se espalhava por toda a casa.
O café tinindo de quente também exalava seu aroma característico, assim como
o leite fervido espumava sua brancura inigualável.
O vai-e-vem começava logo cedo, o homem da casa tomava um pingado,
mastigava às carreiras uma fatia do pão com manteiga recém-assado no forno à
lenha, instalado do lado de fora da casa, bem ao lado da cozinha onde era
servido costumeiramente o café, e saía apressado. As crianças também serviam-
se do que tinha à mesa, que a essa hora já contava tambem com um enorme
bolo, dos milhos que desde o dia anterior já haviam sido debulhados com essa
intenção. Também saíam, rumo ao ponto marcado, onde o ônibus regional
levariam-nas à escola agrícola.
Maria via-se novamente sozinha, à exemplo das primeiras horas da manhã.
Seguia o dia entre os afazeres domésticos, a pequena horta que cultivava no
pedaço de terra aos fundos do terreiro e aos poucos animais da criação que
tinham, dos quais tambem tiravam a subsistência da família em dias de aperto,
uma vez que Joaquim não tinha emprego fixo, trazendo ora sim, ora não, o
salário que proveria as necessidades da casa.
Por vezes, passava o tempo que milagrosamente sobrava, costurando uma coisa
aqui outra ali. Nessas horas aproveitava e reformava uma calça, remendava um
vestido e até fazia uma peça ou outra a pedido de uma ou outra vizinha em troca
de uma porção de moedas. Coisa pouca, mas na hora da necessidade serviam-
lhe de bom proveito. Contava com uma antiga máquina que herdara de sua
finada mãe.
Naquele dia, depois da lida terminada, Maria deitou-se depois de todo mundo,
como já era costumeiro, com a certeza que também se levantaria antes de todos,
no dia que já por passar da meia-noite se adentrava.
E a vida recomeçaria, assim sem luxo, sem pressa e sem grandes esperanças,
Assim como um dia qualquer…
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