Revista LiteraLivre 13ª edição | Page 171

LiteraLivre Vl. 3 - nº 13 – Jan/Fev. de 2019 Sonhos… Cláudia Borges Rio Grande/RS Ela acordou de uma noite bem-dormida. Como de costume com os olhos semicerrados levantou da cama, colocou os chinelos de pelúcia e foi até o banheiro. Fez xixi, deu descarga. Foi a pia, lavou as mãos, o rosto. Olhou-se no espelho, o rosto de sempre. Olhou novamente. Havia algo em suas costas. Uma corcunda? O que seria? Correu para o quarto, tinha um espelho enorme e poderia olhar melhor. Tirou a roupa e olhou, piscou os olhos. Mas como? Parecia uma concha de caracol, como os de jardim. Tentou tirar, mas saia de sua pele. E agora? Como iria ao casamento de Luiza? O vestido não iria servir! Só pode ser um sonho. Resolveu deitar, fechar os olhos para acordar de novo. Repetiu todo o processo. Até fez xixi. Droga! Ainda está aqui! Não sabia o que fazer. Será que foi colocado com superbonder? De suas mãos começou aos poucos a sair uma gosma, parecia que seu corpo produzia. Olhou-se de novo no espelho. Agora tenho guampas? Tocou, agarrou, apalpou. Eram anteninhas. Durante o dia passou assim, trancada em seu apartamento. Tentando não tocar em nada para não sujar com a tal gosma. Tentou quebrar a concha batendo na parede. Fez um estrondo. E nada mudou. Continuou inteiro e o muco que saia de suas mãos se espalhava por todos os móveis. Suas pernas desapareceram e no lugar havia uma cauda com a qual se arrastava. O apartamento todo ficou sujo. Correu ao banheiro. Um banho me fará acordar deste pesadelo. Já eram oito horas da noite e nada. Nunca usaria o vestido vermelho, tão lindo! Fez uma última tentativa de quebrar a concha. Nada, só barulho. O caracol continuava grudado. Nesse instante a porta do apartamento foi arrombada. Inês estava lá se debatendo e gritando: tira isso de mim! Como uma louca, com as mãos ensanguentadas, o corpo com hematomas de tanto se debater. Os vizinhos apavorados, os bombeiros chamaram o psiquiatra... Foi internada no mesmo dia. 167