LiteraLivre Vl. 3 - nº 13 – Jan/Fev. de 2019
Se você diz, então…
Paulo Narley
Teresina/Piauí
Eu me lembro bem de como nós costumávamos possuir a noite, da maneira
como seus lábios pressionavam os meus. Lembro-me do modo como nossos
corpos se moviam numa dança rítmica e prazerosa, envoltos num mar de suor e
gozo! E o cheiro? Ah, o seu cheiro! Nós tínhamos um mundo, o nosso mundo...
Éramos dois e, ao mesmo tempo, um só corpo, espírito e mente.
Lembro-me de como eu costumava acordar de um breve cochilo e te
encontrar me olhando tão profundamente. Nessa hora, era como se minha alma
estivesse ali refletida no azul profundo de seus olhos, e que olhos!
Lembro-me das ligações na madrugada, quando tínhamos que dormir
separados, em que você me dizia antes de desligar:
“eu te amo, garoto”
E, então, eu logo respondia:
“eu te amo mais”
E você parava, respirava profunda e delicadamente antes de dizer:
“Se você diz, então...”
Hoje, eu me peguei vendo nossas polaroides guardadas naquela velha
latinha... Nós éramos mesmo feitos um pro outro...
E olha só o que somos hoje, somos nada mais do que cenas velhas de um
musical antigo, daqueles no estilo Broadway, tão antigo que agora nossa melodia
não faz mais sentido... Sim, estamos falidos!
A vida te levou de mim e me deixou aqui nesse mundo tão cinza...
Enquanto você descansa em paz, eu vivo em guerra. Uma guerra interior onde
vozes gritam numa frequência alta que você continua aqui, uma frequência tão
alta que, às vezes, eu posso te sentir do meu lado...
A morte é algo engraçado, ela nunca leva apenas uma só pessoa, ela leva
consigo a cor e a alegria do parceiro que fica aqui e tem que continuar a vida... E
caminhar por essa casa tão cheia de você é cada vez mais difícil...
Nossos epílogos todos apagados, perdidos no tempo... Até quando eu vou
saber caminhar por mim mesmo, sem tuas mãos para me salvar dos meus
demônios?
Encaro agora a parede vazia, eu tive que tirar todas as nossas fotos ou
enlouqueceria e, olha só, de uma forma ou de outra, acho que vou acabar
mesmo ficando louco! E eu não tenho a quem culpar por isso...
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