Revista LiteraLivre 11ª Edição | Página 177

LiteraLivre Vl. 2- n º 11 – Set / Out. de 2018
A pausa prolongada era a prova derradeira de que não havia espaço para mais.
- Você deveria ter me respondido- arriscou novamente. Ahn? Como assim eu não deveria ter vindo sem aviso, tão de repente? O amor não acaba de repente, a gente se ama, talvez eu muito mais que você, pode ser, mas a gente se ama, como da última vez, lembra? Não, para de dizer que foi recaída, para de dizer que foi um erro! Erro é a gente ficar separado, será que eu não mereço uma chance, eu disse pra você que ia mudar, você concordou, demora meu amor, mas eu vou mudar mesmo, pode trocar a senha do celular quantas vezes quiser, eu não vou mais olhar, ficar vasculhando, desconfiado, te acusando por qualquer bobagem, fique tranquila, é questão de tempo mas eu vou mudar, você vai ver, só preciso de mais uma chance- com as mãos juntas e espalmadas, parecia ele suplicar-, eu me arrependo sim, eu fiz você cair no choro, não, eu ainda não chorei esses últimos dias, mas fiquei triste e arrependido, mas eu sei que você vai voltar pra mim, tudo bem, eu sempre fui grosso, distante e até arrogante contigo algumas vezes, tá bom, muitas vezes, mas você me ama, eu sei, eu disse que vou mudar, e vou, o que mais você quer que eu faça, ajoelhe aqui, perguntar se me perdoa, eu ajoelho, eu pergunto, não acho que seja humilhação fazer isso, eu só reconheço que eu preciso mudar mesmo, mas é que você tem que voltar, você me apagou das redes sociais, não consigo mais ver o seu perfil, o que aconteceu contigo, vai, fala alguma coisa, minha boca tá seca agora, me dá um beijo pelo menos, deixa eu entrar, me abraça, que inferno!, você me ama ainda, não é?
O longo corredor na penumbra recortado apenas pela luz que incidia porta afora em ângulo agudo, projetava sua sombra distorcida e solitária.
- Não vai me dizer que essa história começou por causa daquele tapinha, não, para, não foi mais do que tapa, você sabe, você exagerou dizendo que eu te bati forte, claro que eu não ia te machucar, foi coisa de momento, sem pensar, olha, depois você usou óculos escuros de frescura mesmo, não ficou vermelho nem ficou inchado, mas você me provocou, aquela noite, lembra, disse que o recado no celular não era nada, eu falei que era e você não sabia explicar direito, deu no que deu, mas passou, passou mesmo, já te pedi desculpa, não precisa ter medo de mim, eu nem sei mais o que falar, você parada aí, não responde, não se mexe, e eu colocando pra fora meus sentimentos, me abrindo todo, esquece essa história de tapa, foi um só, tá bom, dois, mas esquece isso, o importante é que eu te amo, a gente se ama, eu vou te esperar, eu sei que você vai voltar logo, não sei mais o que fazer sem você, volta logo.
Ela carregava uma expressão grave com traços de repulsa e horror e ele desafiava a distância necessária que ela impunha, aproximando seus pés da soleira, mas incapaz de alcançá-la. Havia ali um campo de força intransponível. A
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