Revista Kaki - Maio 2016 - 01 | Page 26

CONTO J O Ã O V I C T O R D O S S A N T O S , L E O N A R D O S I Q U E I R A N O L A S C O, N AYA R A N A S C I M E N T O F R A N C E S C O E W E S L E Y G O M E S D E O L I V E I R A Alunos do 2º JOR – A E Em 1940, começa a ocupação nazista em Paris. A Segunda Guerra faz parte do cotidiano parisiense. A morte parece uma sombra à espreita de cada cidadão. Julie e Annie, irmãs gêmeas de 8 anos, vivem no caos em Paris. Apesar das dificuldades, conseguem tirar alegria dos breves momentos juntas. Após a morte de seus pais, passaram a viver com os tiosavós. Quase sempre ficavam sozinhas em casa, pois os adultos eram obrigados a trabalhar na maior parte do tempo. As meninas adoravam brincar de esconde-esconde. Um dia, em uma dessas brincadeiras, Julie não conseguiu encontrar Annie. Uma mistura de preocupação, medo e desespero tomou conta da garota. Sem a irmã e com tão pouco contato com os tios, ela estaria sozinha. Julie passou o dia à procura de Annie. Procurou nas ruas, nos quintais dos vizinhos. Revirou a casa toda. E nada. A garota já estava a ponto de simplesmente parar e chorar, quando, ao passar pelo espelho do corredor, percebeu algo estranho. Os movimentos de seu reflexo eram parecidos, mas não idênticos aos que ela fazia. No momento em que tocou a própria imagem projetada, o espelho trincou. E continuou trincando, até que, de dentro da moldura, caiu uma pequena bolsa em forma de coração. Ela ainda olhava assustada para o espelho e para a bolsa, quando a voz da irmã soou em seus ouvidos: “Guarda-roupa”, dizia, em tom baixo e sombrio. Apesar do medo, um fiapo de felicidade brilhou no coração de Julie. Ela pensou: “Guarda-roupa: o único lugar onde eu não procurei.” 26 RE V I S TA KA KI A garota pegou a bolsa e correu para o quarto. Já preparada para dar um abraço na irmã, correu para o armário e o abriu. Estava vazio. Ela não entendeu nada. Annie tinha de estar ali! Que recado teria sido aquele, dado pela voz da irmã? Foi então que Julie lembrou: “A bolsa!” Abriu-a no mesmo instante. Lá dentro havia uma pequena chave. Julie olhou em volta. Procurou, procurou, mas não viu nada a ser destrancado. Até que, de repente, algo brilhou dentro do armário. Era uma fechadura. Julie enfiou a chave a girou. Assim que o fundo do armário se abriu, a garota ficou deslumbrada. Do lado de lá, havia um campo cheio de árvores e pássaros cantando. O céu estava de um azul intenso. Lindo! O paraíso! Annie estava logo atrás da primeira árvore, chamando por Julie. As duas se abraçaram. Julie queria entender o que estava acontecendo. Mas Annie só estava interessada em brincar. E assim passaram o dia: correndo no campo. Enquanto brincavam, ouviram um forte estrondo, como uma bomba explodindo. No mesmo instante, os pássaros voaram. Houve um clarão e, ao mesmo tempo, uma dor horrível na cabeça, como um puxão bem forte nos cabelos. Quando as duas abriram os olhos, viram o teto da casa. Ainda sem entender direito, se deram conta que estavam estiradas no chão. O armário havia caído logo abaixo de seus pés. Soldados apontavam canos de espingardas bem perto de seus rostos. A brincadeira havia acabado.