Revista Kaki - Maio 2016 - 01 | Seite 11

Studio Fuze

Estamos à mercê da internet, nenhuma dúvida. A questão é: por que isso acontece? Nada mais inquietante, até estranhamente aterrorizador, do que a certeza de que se está à mercê de algo ainda coberto por névoa( como usuários agressivos, mascarados por perfis nas redes sociais).

O jornal Edição do Brasil, de Minas Gerais, publicou em janeiro deste ano uma suposta entrevista dada pelo jornalista e doutor em Ciência Política Leonardo Sakamoto. A manchete afirmava:“ Cientista político diz que aposentados são‘ inúteis à sociedade’” e, ao longo do texto, a matéria atribuía a ele uma série de opiniões maldosas sobre o reajuste do salário mínimo, contendo, segundo o jornal, duras críticas.
“ Três formas para convencer os pobres que aumentar o salário mínimo é ruim”. Esse foi o título do texto encontrado no Blog do Sakamoto, que deu início à confusão. O texto criticava, com muita ironia( característica do autor), os discursos contrários ao reajuste salarial. Dizia, de forma satírica, que aposentados não podem receber aumentos na mesma progressão que a população economicamente ativa, pois esta pode vender sua força de trabalho e merece comer, beber, comprar remédios. Ressaltava que o governo tem que se preocupar em garantir a manutenção da mão de obra para o capital e, sendo assim, chegando em tal idade, os idosos deveriam serem destinados a instituições de“ reciclagem”.
Pessoas que não conhecem as ideias de Sakamoto, e muito provavelmente não leem seu blog, começaram a compartilhar o texto, indignadas. Isso fez com que a mentira fosse difundida na rede e tomasse proporções incontroláveis. A difusão foi tão grande, que as“ duras críticas” chegaram com extrema facilidade aos olhos dos aposentados. Estes e outros internautas publicaram mensagens de ódio na rede, algumas diretamente ao jornalista, nas quais podia se perceber que os autores certamente tinham os olhos saltando de tão esbugalhados e a boca espumando enquanto digitavam, de tanta raiva que continham.
Essas redes de ódio, mesmo depois de saber que a entrevista não era verdadeira e que não refletia o pensamento de Leonardo, tomaram o conteúdo como verdade absoluta e poluíram o mar da internet como se não houvesse alguém do outro lado da tela.“ Esse desgraçado é vendido para o governo federal”, frases como essa eram facilmente encontradas, com a acusação de que o blogueiro era pago para falar mal de aposentados.
Tamanho foi o ódio, que o jornalista foi obrigado a acionar seus advogados em uma tentativa de defesa. Isso levantou a um ponto que vinha sendo discutido há algum tempo: a segurança na internet. Só que, desta vez, direcionada aos jornalistas do Brasil. Por que jornalistas são tão hostilizados por exercerem sua profissão? Por que existem tantos delitos na rede? Por que esse ódio todo? A resposta talvez possa ser explicada pelo fato de que ainda há muitas dificuldades em se apurar crimes na internet, devido a uma série de fatores que não entram em questão aqui. Vale lembrar que os órgãos responsáveis por cuidar desses delitos buscam criminalizar( Quem? ou O Que?) o máximo possível e fazer com que a navegação seja algo controlado.
Por conta de casos como esses, leis já foram propostas no Congresso Nacional com o intuito de combater os crimes na rede. Mas o conteúdo destas é um tanto quanto radical e pode mudar a maneira como se navega na internet. Um ambiente censurado cheio de repressão viria à tona, os direitos dos usuários seriam feridos e as redes sociais virariam uma espécie de Big Brother Brasil, só que sem as festinhas costumeiras.
O ideal seria que se encontrasse formas de combater os“ web-delitos”, sem no entanto tirar a liberdade de expressão dos internautas, pois todos são iguais perante a lei. O pior é que isso tudo talvez não passe de uma onda passageira, que será rapidamente superada pelos velhos“ memes” da internet, e que tudo continuará na mesma, como qualquer notícia quente que aparece na rede.
Os toques dos dedos dão“ likes” sem parar e o alarme de notificação dos celulares tocam o tempo todo. Estamos à mercê.
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