Revista Febase 85 - Julho 2018 Revista Febase 85 | 页面 26
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Texto | Diogo Tavares
O delito do Mérito
Faz sentido selecionar indivíduos para uma
função com base no mérito próprio e na
experiência adquirida?
O
sociólogo Michael Young publicou,
em 1958, o seu ensaio “A Ascensão da
Meritocracia”, e pela sátira deu a conhecer ao
mundo uma sociedade hipotética, onde o
mérito próprio ditava a posição de cada um
na estratificação social. Na obra em si, o autor
descreve uma sociedade distópica onde a
inteligência e o mérito destacam-se como
as pedras de toque para o funcionamento
da sociedade, substituindo as divisões entre
classes sociais por uma divisão entre os que
alcançavam por mérito próprio uma posição
de elite e as restantes subclasses sem mérito.
Mas não tenha dúvidas, caro leitor. Para o
bem e para o mal, a nossa sociedade é uma
de mérito, onde os mais capazes têm a opor-
tunidade de avançarem para o sucesso mais
facilmente que os outros, e eventualmente
são sempre recompensados devidamente
pelas suas contribuições para a sociedade. E
faz todo o sentido selecionar indivíduos para
uma função com base no mérito próprio e
na experiência adquirida, certo?
COMPETIÇÃO
O problema de uma sociedade com
base no mérito é que a competição para
conquistar uma posição alta nesta socie-
dade é exacerbada, elevando o nível mí-
nimo de entrada para ser bem-sucedido
para extremos absurdos.
Basta olhar para a forma como o en-
sino secundário completo tornou-se o
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mínimo dos mínimos para poder candi-
datar-se para posições de remuneração
mínima. Isto são doze anos de vida e mi-
lhares de euros investidos, por pessoa, só
para poder ser apto para se candidatar a
ganhar o salário mínimo.
E isto nem sequer inclui os que são permi-
tidos a continuar este investimento durante
mais cinco anos para darem entrada e con-
cluir o ensino superior. Ou os que vão ainda
mais além, com doutoramentos e pós-gra-
duações consecutivas, que vão chegar ao
fim desta jornada com três décadas de vida
pelas costas e com poucas garantias de que
vão conseguir encontrar carreira fora das fa-
culdades, e isto se não forem explorados em
estágios não remunerados dentro das insti-
tuições académicas.
São muitas as histórias de estudantes
universitários que não conseguem ingres-
sar nas carreiras pelo qual estudaram para
fazer parte e que acabam com trabalhos
de baixa remuneração nas áreas da restau-
ração ou marketing.
A GRANDE MENTIRA
Esta é a grande mentira, a de que os es-
tudos são por si uma fórmula de sucesso
para alcançar o mérito necessário ao su-
cesso, e quem siga os seus sonhos e am-
bições vai encontrar garantidamente o
que procura no final do seu percurso for-
mativo. Isto cria uma grande procura pelas
melhores carreiras associadas a estas áreas
académicas, e aumenta o nível de exigên-
cia para perseguir estas carreiras.
Em artigos anteriores já tinha apontado
para a tirania dos currículos e das espec-
tativas irrealistas que exigem a procura do
melhor candidato e do mais capaz para
toda e qualquer posição, independente
das capacidades intrínsecas do mesmo.
OPORTUNIDADES
Mike Rowe analisa este fenómeno em
detalhe no seu segmento “Não sigam as
vossas paixões” e defende a posição que
o melhor candidato para um trabalho não
é o que se prepara mais tempo e mais
eficazmente para executar determinada
função, mas o que persegue as oportu-
nidades para as quais demonstra aptidão
apesar de não serem populares. Que mais
determinante que os percursos que se-
guimos para alcançar as nossas metas são
as aptidões naturais que cada um tem e
que podem ser exploradas a longo prazo.
Escrevo por experiência própria, pois
até eu já fui vítima deste processo. E
como eu, colegas e amigos da minha
geração que viam a faculdade como a
meta final, e que tudo o resto viria com
o tempo. Longe de sabermos que o que
basta é uma oportunidade para provar o
nosso mérito, e que procurar é bem me-
lhor do que esperar. w