Revista Duas Asas vol 1 | Seite 34

ENTREVISTA Quando você aprendeu a fotografar e o que te motivou? Eu sempre gostei de fotografia, desde criança pegava a câmera e tentava registrar tudo que via, mas oficialmente tem um ano e meio que fotografo. Meu interesse surgiu como curiosidade de criança, de sempre querer descobrir coisas novas. Com o passar do tempo, fotografar foi se tornando cada vez mais fácil, acessível. Era algo que eu já gostava na minha infância e fui evoluindo à medida que cresci. O que você quer mostrar com as suas fotos? O significado depende muito de cada ensaio fotográfico. Nesse último trabalho, eu quis expressar como a arte urbana se co- munica e se conecta com público. Tive uma palestra com dois grafiteiros brasilienses, Daniel Toys e Mikael Omik, e uma coisa que eles disseram me marcou bastante, re- velaram que nunca chegam a um local com o grafite previamente feito, a princípio ima- ginam e analisam como a arte vai se encai- xar ao ambiente. O que tentei captar no meu ensaio foi o contraste do preto e branco com as cores vibrantes, mostrar como as paredes dialogam, mas muitas vezes a população não percebe. Fiz questão de deixar um ex- cesso de cores em algumas partes e tirar a saturação de outras justamente pra enfatizar essa mensagem. Qual você considera o seu melhor trabalho? Definitivamente esse último que realizei, eu considero meu melhor trabalho, porque sinto que consegui capturar a essência e in- tensidade das cores, e a forma que elas se des- locam e interagem com o ambiente urbano. Qual o perfil necessário de um fotógrafo? Acredito que um fotógrafo deve estar sempre com a mente aberta e os olhos aten- tos para capturar algo que normalmente passaria despercebido. Porque a fotografia é algo que você captura em milissegundos, é muito rápido, é um momento muito especí- fico que é registrado. Acho que em cada cli- ck, o fotografo deve tentar mostrar algo que normalmente os olhos enxergam, mas não vislumbram. Muitas vezes você pode ver as cores, mas não notar como tanta informa- ção cabe dentro de uma imagem. Você acha que o perfil muda conforme a área da fotografia? Acho que sim. Algumas áreas são de- 34 Fotos: Carlos André le ambiente mais fechado, as pessoas de lá olham para as paredes, para os murais que os artistas fazem porque de certa forma é uma janela de escape da realidade. Você tem algum fotógrafo que te inspira? Na verdade, os que mais me inspiram são Carlos Copertone e Naira Mattia. Eles têm trabalhos bem diferentes do meu, mas procuro implementar alguns aspectos de seus trabalhos. O Carlos, por exemplo, fotografa muita arquitetura e urbanismo. Seu trabalho ge- ralmente tem “linhas” de leitura. Os cantos dos prédios junto com os ângulos da foto- grafia geram essas linhas que procuro intro- duzir em algumas de minhas fotos Já o trabalho da Naira é bem imerso em cores vivas e suas aplicações. Geralmente eles são bem focados a alguns pontos cen- trais. Acredito que isso influenciou muito a forma que montei meu trabalho. Que lugares gostaria de fotografar e expor seus trabalhos? Eu adoraria fotografar no exterior e ver lugares diferentes dos que estou acostuma- do. Eu acho que aceitaria expor minhas fo- tografias em qualquer lugar. É sempre uma ótima oportunidade de divulgar o trabalho. dicadas a fotografar de forma mais realista possível, por exemplo, os documentários, é uma modalidade que restringe a liberdade de expressão do artista. Já a publicidade tem mais flexibilidade para o fotógrafo. Então acho que depende muito com que você está trabalhando e o que você quer expressar. Quais são as maiores dificuldades para o fotógrafo em início de carreira? Acho que está mais relacionado à criati- vidade, é muito difícil libertar a nossa mente dos padrões estabelecidos pela sociedade. A maior dificuldade é você capturar algo em uma perspectiva que faça o público refletir e mudar sua forma de ver o mundo. Algum conselho para quem está começando? Não se prender a um tipo de fotogra- fia, experimentar todas as formas por mais difíceis que possam ser. Podemos descobrir técnicas em um estilo, que podem ser utilizadas em outros tipos de fotografia. É um processo de aprendiza- do longo e contínuo que formará uma identidade própria do artista. DUAS ASAS Brasília, segunda-feira, 10 de junho de 2019 Você possui locais de preferência para fotografar? Como sigo esta filosofia de sempre ten- tar coisas novas e novos lugares eu não te- nho um local favorito, eu sempre gosto de pensar o que caberia em uma foto e variar mesmo que signifique sair do lugar de cos- tume e ir um pouco mais longe. Qual a importância do equipamento para um fotógrafo? A gente costuma dar muita aten- ção para equipamento, você pode ter o equipamento que for, o melhor de todos, mas sem um domínio de uma técnica e sem um domínio de um olhar, aquele equipamento será inútil, o que o fotografo realmente precisa é conseguir ver uma cena por inteiro e dentro dessa cena ver os detalhes, muitas vezes você pega uma cena grande e aí vai dimi- nuindo e diminuindo até que você acha uma particularidade muito específica. O que te levou a essa visão sobre as cores? Antes de fazer publicidade eu estudava psicologia e durante esse tempo fui muito frustrado porque estava em um curso onde me sentia obrigado a fazer e não sentia pra- zer naquelas aulas. Na maioria dos meus dias eu via as coisas cinza e depois de um processo terapêutico, apoio da família e amigos e uma mudança de curso, comecei a ver as coisas com mais cores e comecei a perceber a falta que algumas cores me fa- ziam, a falta da mistura de cores no meu dia-a-dia cinzento. Fale-nos um pouco sobre os seus objetivos na área fotográfica para o futuro? É um pouco complicado porque gosto de viver no presente e o que estou ima- ginando naquele momento. Então nesse momento, estou achando muito interes- sante como as cores dos ambientes afetam as pessoas, como coisas simples no nosso ambiente pintam nosso dia, sinto que mui- tas vezes estamos presos a uma grande quantidade de cinza, aqui em Brasília é até menos porque os prédios só chagam até seis andares e temos a visão do céu cons- tantemente, os jardins daqui são muito bem cuidados e tem muita natureza, já em São Paulo percebo uma atmosfera fe- chada nos meios urbanos, acho que tem muita presença de cinza, preto e branco e falta graça, falta sabor nos ambientes, o que pretendo fazer no meu futuro na fotografia é realmente mostrar como é que coisas or- dinárias pintam nosso dia-a-dia. Você fez um paralelo entre São Paulo e Brasília. São Paulo é mais claustrofóbico, fechado e Brasília é mais livre. Você acha que aqui é melhor de fotografar do que lá ou cada um tem suas particularidades? Depende do trabalho, porque fotografia não necessariamente é ao ar livre, você pode fazer uma fotografia em um estúdio, nesse caso tanto faz se você está em São Paulo ou Brasília. Mas quando a questão é fotografar em ambientes externos, querendo capturar mais natureza como um verde ou um azul eu diria Brasília, agora se o objetivo capturar como exemplo este ensaio que realizei sobre os grafites, eu optaria por São Paulo, acredito que lá daria um trabalho muito mais imer- sivo do que aqui porque tem essa atmosfera claustrofóbica, lá os prédios são muito altos conferindo uma sensação de confinamento, a população está muitas vezes presa naque- Publicar fotos de grafites, não deixa de ser um trabalho de inclusão social, apresentação de artistas de outras modalidades e comunidades. Tem intenção de elevar seu trabalho a nível internacional? Conseguir um alcance internacional certamente é uma meta. Iria dizer muito sobre a qualidade do trabalho e espero con- seguir essa repercussão. Você disse em um momento da entrevista sobre a falta das cores em sua vida, qual é a importância das cores pra você? Acho que as cores são fundamen- tais para o ser humano. A capacidade de uma cor de transmitir uma sensa- ção é algo que valorizo muito. Nos- sos olhos se interessam pelas cores, e a atenção delas em uma fotografia pode dizer muito sobre a intenção do fotógrafo. No meu caso, usei princi- palmente para chamar atenção aos grafites, enquanto o resto fica em segundo plano, e para mostrar o im- pacto deles em lugares específicos. DUAS ASAS Brasília, segunda-feira, 10 de junho de 2019 35