ENTREVISTA
Quando você aprendeu a fotografar e o
que te motivou?
Eu sempre gostei de fotografia, desde
criança pegava a câmera e tentava registrar
tudo que via, mas oficialmente tem um ano
e meio que fotografo. Meu interesse surgiu
como curiosidade de criança, de sempre
querer descobrir coisas novas. Com o passar
do tempo, fotografar foi se tornando cada
vez mais fácil, acessível. Era algo que eu já
gostava na minha infância e fui evoluindo à
medida que cresci.
O que você quer mostrar com as suas fotos?
O significado depende muito de cada
ensaio fotográfico. Nesse último trabalho,
eu quis expressar como a arte urbana se co-
munica e se conecta com público. Tive uma
palestra com dois grafiteiros brasilienses,
Daniel Toys e Mikael Omik, e uma coisa
que eles disseram me marcou bastante, re-
velaram que nunca chegam a um local com
o grafite previamente feito, a princípio ima-
ginam e analisam como a arte vai se encai-
xar ao ambiente. O que tentei captar no meu
ensaio foi o contraste do preto e branco com
as cores vibrantes, mostrar como as paredes
dialogam, mas muitas vezes a população
não percebe. Fiz questão de deixar um ex-
cesso de cores em algumas partes e tirar a
saturação de outras justamente pra enfatizar
essa mensagem.
Qual você considera o seu melhor trabalho?
Definitivamente esse último que realizei,
eu considero meu melhor trabalho, porque
sinto que consegui capturar a essência e in-
tensidade das cores, e a forma que elas se des-
locam e interagem com o ambiente urbano.
Qual o perfil necessário de um fotógrafo?
Acredito que um fotógrafo deve estar
sempre com a mente aberta e os olhos aten-
tos para capturar algo que normalmente
passaria despercebido. Porque a fotografia é
algo que você captura em milissegundos, é
muito rápido, é um momento muito especí-
fico que é registrado. Acho que em cada cli-
ck, o fotografo deve tentar mostrar algo que
normalmente os olhos enxergam, mas não
vislumbram. Muitas vezes você pode ver as
cores, mas não notar como tanta informa-
ção cabe dentro de uma imagem.
Você acha que o perfil muda conforme a
área da fotografia?
Acho que sim. Algumas áreas são de-
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Fotos: Carlos André
le ambiente mais fechado, as pessoas de lá
olham para as paredes, para os murais que os
artistas fazem porque de certa forma é uma
janela de escape da realidade.
Você tem algum fotógrafo que te inspira?
Na verdade, os que mais me inspiram
são Carlos Copertone e Naira Mattia. Eles
têm trabalhos bem diferentes do meu, mas
procuro implementar alguns aspectos de
seus trabalhos.
O Carlos, por exemplo, fotografa muita
arquitetura e urbanismo. Seu trabalho ge-
ralmente tem “linhas” de leitura. Os cantos
dos prédios junto com os ângulos da foto-
grafia geram essas linhas que procuro intro-
duzir em algumas de minhas fotos
Já o trabalho da Naira é bem imerso em
cores vivas e suas aplicações. Geralmente
eles são bem focados a alguns pontos cen-
trais. Acredito que isso influenciou muito a
forma que montei meu trabalho.
Que lugares gostaria de fotografar e
expor seus trabalhos?
Eu adoraria fotografar no exterior e ver
lugares diferentes dos que estou acostuma-
do. Eu acho que aceitaria expor minhas fo-
tografias em qualquer lugar. É sempre uma
ótima oportunidade de divulgar o trabalho.
dicadas a fotografar de forma mais realista
possível, por exemplo, os documentários, é
uma modalidade que restringe a liberdade
de expressão do artista. Já a publicidade tem
mais flexibilidade para o fotógrafo. Então
acho que depende muito com que você está
trabalhando e o que você quer expressar.
Quais são as maiores dificuldades para o
fotógrafo em início de carreira?
Acho que está mais relacionado à criati-
vidade, é muito difícil libertar a nossa mente
dos padrões estabelecidos pela sociedade. A
maior dificuldade é você capturar algo em
uma perspectiva que faça o público refletir e
mudar sua forma de ver o mundo.
Algum conselho para quem está
começando?
Não se prender a um tipo de fotogra-
fia, experimentar todas as formas por
mais difíceis que possam ser. Podemos
descobrir técnicas em um estilo, que
podem ser utilizadas em outros tipos de
fotografia. É um processo de aprendiza-
do longo e contínuo que formará uma
identidade própria do artista.
DUAS ASAS Brasília, segunda-feira, 10 de junho de 2019
Você possui locais de preferência para
fotografar?
Como sigo esta filosofia de sempre ten-
tar coisas novas e novos lugares eu não te-
nho um local favorito, eu sempre gosto de
pensar o que caberia em uma foto e variar
mesmo que signifique sair do lugar de cos-
tume e ir um pouco mais longe.
Qual a importância do equipamento
para um fotógrafo?
A gente costuma dar muita aten-
ção para equipamento, você pode ter
o equipamento que for, o melhor de
todos, mas sem um domínio de uma
técnica e sem um domínio de um olhar,
aquele equipamento será inútil, o que o
fotografo realmente precisa é conseguir
ver uma cena por inteiro e dentro dessa
cena ver os detalhes, muitas vezes você
pega uma cena grande e aí vai dimi-
nuindo e diminuindo até que você acha
uma particularidade muito específica.
O que te levou a essa visão sobre as cores?
Antes de fazer publicidade eu estudava
psicologia e durante esse tempo fui muito
frustrado porque estava em um curso onde
me sentia obrigado a fazer e não sentia pra-
zer naquelas aulas. Na maioria dos meus
dias eu via as coisas cinza e depois de um
processo terapêutico, apoio da família e
amigos e uma mudança de curso, comecei
a ver as coisas com mais cores e comecei a
perceber a falta que algumas cores me fa-
ziam, a falta da mistura de cores no meu
dia-a-dia cinzento.
Fale-nos um pouco sobre os seus objetivos
na área fotográfica para o futuro?
É um pouco complicado porque gosto
de viver no presente e o que estou ima-
ginando naquele momento. Então nesse
momento, estou achando muito interes-
sante como as cores dos ambientes afetam
as pessoas, como coisas simples no nosso
ambiente pintam nosso dia, sinto que mui-
tas vezes estamos presos a uma grande
quantidade de cinza, aqui em Brasília é até
menos porque os prédios só chagam até
seis andares e temos a visão do céu cons-
tantemente, os jardins daqui são muito
bem cuidados e tem muita natureza, já
em São Paulo percebo uma atmosfera fe-
chada nos meios urbanos, acho que tem
muita presença de cinza, preto e branco e
falta graça, falta sabor nos ambientes, o que
pretendo fazer no meu futuro na fotografia
é realmente mostrar como é que coisas or-
dinárias pintam nosso dia-a-dia.
Você fez um paralelo entre São Paulo e
Brasília. São Paulo é mais claustrofóbico,
fechado e Brasília é mais livre. Você acha
que aqui é melhor de fotografar do que lá
ou cada um tem suas particularidades?
Depende do trabalho, porque fotografia
não necessariamente é ao ar livre, você pode
fazer uma fotografia em um estúdio, nesse
caso tanto faz se você está em São Paulo ou
Brasília. Mas quando a questão é fotografar
em ambientes externos, querendo capturar
mais natureza como um verde ou um azul
eu diria Brasília, agora se o objetivo capturar
como exemplo este ensaio que realizei sobre
os grafites, eu optaria por São Paulo, acredito
que lá daria um trabalho muito mais imer-
sivo do que aqui porque tem essa atmosfera
claustrofóbica, lá os prédios são muito altos
conferindo uma sensação de confinamento,
a população está muitas vezes presa naque-
Publicar fotos de grafites, não deixa
de ser um trabalho de inclusão social,
apresentação de artistas de outras
modalidades e comunidades. Tem
intenção de elevar seu trabalho a nível
internacional?
Conseguir um alcance internacional
certamente é uma meta. Iria dizer muito
sobre a qualidade do trabalho e espero con-
seguir essa repercussão.
Você disse em um momento da entrevista
sobre a falta das cores em sua vida, qual é a
importância das cores pra você?
Acho que as cores são fundamen-
tais para o ser humano. A capacidade
de uma cor de transmitir uma sensa-
ção é algo que valorizo muito. Nos-
sos olhos se interessam pelas cores,
e a atenção delas em uma fotografia
pode dizer muito sobre a intenção do
fotógrafo. No meu caso, usei princi-
palmente para chamar atenção aos
grafites, enquanto o resto fica em
segundo plano, e para mostrar o im-
pacto deles em lugares específicos.
DUAS ASAS Brasília, segunda-feira, 10 de junho de 2019
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