Revista de Medicina Desportiva Setembro 2020 Setembro 2020 - Page 14

redução dos músculos extensores dos joelhos e flexores plantares . 17-19 Estas mudanças justificam as queixas álgicas a nível lombar , bacia , anca e sacroilíaca . Ocorre , ainda , redução da dorsiflexão da articulação tibiotársica , com consequente
11 , 20 maior risco de queda .
Alterações fisiológicas do exercício na gravidez
As alterações fisiológicas da gravidez são reconhecidas desde as fases precoces da gestação , sendo o seu impacto no exercício crescente após as 20 semanas . 21
O dispêndio energético na gravidez depende do tipo de exercício . Nos exercícios sem carga constata- -se pouca diferença em relação à mulher não grávida , contudo nos exercícios em carga destaca-se um aumento proporcional no ganho ponderal . 21
Durante o exercício as alterações descritas a nível cardiovascular e pulmonar tendem a ser incrementadas . Contudo , o que se constata é diminuição da reserva cardíaca na gravidez ( diferencial entre a FC máxima e a FC em repouso ) 22 , caracterizada pela FC em repouso superior , acompanhada pela FC máxima no exercício inferior ao expectável . Pensa-se que esta alteração ocorra devido à resposta simpaticoadrenal atenuada . 10 , 23 , 24 Deste modo , a FC revela-se um mau método de monitorizar e prescrever a intensidade de exercício nas grávidas , estando associada a sobrevalorização em repouso e o efeito contrário em exercício .
O melhor método de avaliar a capacidade de trabalho aeróbio nesta fase é a determinação do VO 2 máximo , podendo o mesmo ser expresso em valor absoluto ( l / min ) ou em função da massa corporal ( ml / kg / min ). O valor absoluto não sofre grandes alterações na grávida caso esta mantenha o nível de atividade física prévio . Por outro lado , o VO 2 max em função da massa corporal diminui em função do ganho ponderal durante a gestação . 25-27 Na nossa opinião , esta informação tem apenas valor teórico , sendo na prática não aplicável a grávidas pela escassez de dados referentes ao perfil de segurança .
Acredita-se que a expansão do volume plasmático , com consequente hemodiluição , poderá justificar a diminuição do pico de ácido lácteo na grávida face à mulher não
10 , 27
grávida .
A nível metabólico , após a prática de exercício na gravidez , ocorre diminuição mais rápida e acentuada dos valores da glicemia acompanhada pela diminuição da insulinémia . 28
Efeitos do exercício a longo prazo
Os efeitos metabólicos são idênticos às mulheres não grávidas , com aumento absoluto do VO 2 max ( l / min ), aumento da captação de O 2 e diminuição da FC durante exercício de intensidade leve a moderada . 10 Estudos mais recentes têm sugerido o melhor controlo autonómico cardíaco , não apenas pela diminuição da FC materna , mas também pelo aumento da variabilidade da mesma como demonstrado no estudo caso controlo publicado por Linda May et al . com 56 grávidas de baixo risco , onde no grupo com prática regular de exercício se verificou diminuição significativa da FC em repouso ( p < 0.05 ) e aumento da variabilidade da mesma em repouso ( p < 0.01 ). 29
Descreve-se ainda um ligeiro aumento do volume plasmático materno , volume sistólico , DC e compliance vascular 30 , contudo , o aumento é pouco significativo devido ao concomitante aumento causado pela própria gravidez . 23
Contrariamente às mulheres não grávidas , nas grávidas não existe bradicardia em repouso . 23 Nas grávidas com prática regular de exercício ocorre melhoria da dispneia com diminuição do esforço respiratório explicada pela diminuição da produção e sensibilidade ao CO 2 associado à diminuição do espaço morto ventilatório com melhor razão ventilação perfusão .
Resposta fetoplacentar ao exercício
O fluxo das artérias uterinas da grávida em repouso no final da gravidez aumenta 10 vezes , correspondendo a 17 % do total do débito cardíaco ( incremento de 2 % para 17 %), sendo 80 % deste fluxo direcionado para a interface maternoplacentar – o espaço intervilositário .
Durante o exercício ocorre diminuição do fluxo nas artérias uterinas , com atingimento principalmente do miométrio , mantendo-se a perfusão uteroplacentar assegurada até níveis muito elevados de exercício . 21 Estudos de avaliação indireta do fluxo placentário pelo doppler da artéria umbilical demonstraram ligeira diminuição na resistência
21 , 33
sanguínea placentária .
O exercício acarretará para o feto um aumento da frequência cardíaca fetal ( FCF ), proporcional à intensidade e duração do mesmo 34 , que se justifica pela hipóxia transitória , aumento da temperatura e transferência de catecolaminas . 34 Pode ocorrer bradicardia fetal após término de exercício extenuante , justificado , teoricamente , pela queda abrupta do débito cardíaco com consequente redução da perfusão uterina . 35 , 36 Após a prática do exercício extenuante pode ocorrer ainda diminuição da variabilidade da FCF e dos movimentos respiratórios fetais .
Benefícios do exercício na gravidez
A prática regular de exercício físico na gravidez desde fases precoces tem associados múltiplos benefícios maternos e fetais . Está descrito o aumento do crescimento placentar e maior número de vilosidades . A gestante beneficia do aumento da massa magra 40 , melhoria e manutenção da performance física 41 , 42 , diminuição da incidência de diabetes gestacional e melhor controlo glicémico após diagnóstico . 43-45 Adicionalmente , está comprovado um melhor controlo arterial e diminuição do risco de pré-eclâmpsia , assim como diminuição da incidência de parto distócico vaginal ou por cesariana . 46-49
Prática de exercício intenso e extenuante
Baseado em estudos animais , a prática de exercício extenuante leva a resposta simpática materna elevada , com redução do fluxo placentário , aumento da produção de ácido láctico , diminuição da disponibilidade
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