Revista de Medicina Desportiva Nov. 2021 | Page 32

The aging athete
Dr . Jaime Milheiro Medicina Física e Reabilitação / Medicina Desportiva . CMEP , Porto
Em 1989 o American Journal of Sports Medicine publicou um artigo com o tema The Aging athlete com o objetivo de demonstrar que o atleta que entra no processo de envelhecimento difere do competidor mais jovem em muitas facetas , apresentando diferenças fisiológicas , estruturais e psicossociais , que os distinguem como uma entidade única no mundo atlético . Refere que , apesar das alterações inevitáveis ​que os anos impõe aos nossos corpos , esses atletas ainda são capazes de performances incríveis de força , habilidade e resistência , apresentando um risco lesional associado ao programa atual e ao seu histórico . Realçam que a literatura sugere fortemente que a maior ameaça à saúde do atleta que entra neste processo não é o envelhecimento em si , mas sim a inatividade , sugerindo que o exercício regular pode ser capaz de retardar o declínio fisiológico associado à velhice em até 50 %, chamando-lhe uma verdadeira fonte de juventude , da qual todos nós podemos recorrer . Não faz qualquer referência à componente hormonal .
A testosterona tem um papel importante na fisiologia de vários órgãos e tecidos , mas a concentração sérica diminui gradualmente com o envelhecimento . Assim , o conceito de hipogonadismo de início tardio tem ganho cada vez mais atenção nos últimos anos , promovido pelo aumento da longevidade do cidadão comum e do atleta em particular . Nos tempos atuais , muita da sintomatologia associada ao hipogonadismo natural do envelhecimento é desejavelmente combatida ou atenuada pelo cidadão comum , quer pelo seu desejo de manter a funcionalidade física , mental e sexual , quer pelo objetivo de prevenir a doença , nomeadamente , a doença cardiovascular e / ou metabólica .
Muitos artigos publicados ao longo dos últimos 20 anos apresentam resultados controversos sobre a terapia de reposição com
testosterona , havendo , contudo , um certo consenso sobre o cuidado a ter nesta prática a fim de evitar efeitos laterais indesejáveis . A sua utilização é nitidamente crescente . A revista TIME , na edição de Agosto de 2014 , fez capa com a figura de um atleta no processo de envelhecimento , sob o tema Manopause , com a frase : Feeling deflated ? The low testosterone industry wants to pump you up . Referia que , na altura , tratava-se de uma indústria que envolvia 2,4 biliões de dólares por ano e que nos EUA , entre 2007 e 2012 , o número de prescrições anuais passou de 2,9 para 7,5 milhões . Refere dados de estudo publicado em 2013 pelo pesquisador da Universidade de Sidney David Handelsman no Medical Journal of Australia , em que o número de prescrições escritas nos Estados Unidos cresceu quase dez vezes de 2000 a 2011 , fazendo parte de um boom mundial . Uma frase curiosa podia ser lida : não importa o que você pense sobre a terapia de reposição de testosterona , haverá sempre algum cientista , em algum lugar , com dados para apoiá-lo , realçando as várias posições antagónicas sobre a sua utilização .
Ana Isabel Martin numa publicação de 2018 , denominada Hormones and muscle atrophy , descreve bem o papel do sistema endócrino no metabolismo muscular , na saúde e na doença , realçando o papel anabólico da testosterona , da hormona de crescimento e do IGF-1 , mas igualmente referindo o papel de hormonas catabólicas na proteólise e sarcopenia , nomeadamente o cortisol . No resumo final realça que a atrofia musculoesquelética está associada a grande variedade de condições , onde se inclui o desuso ou a imobilização , bem como a estádios catabólicos crónicos que cursam com caquexia , referindo que a sarcopenia é uma condição complexa e multifatorial e pode ser atribuída às complexas interações entre vários fatores , incluindo alterações do sistema endócrino . Refere , com cuidado , que a suplementação hormonal pode ser uma estratégia terapêutica possível , mas que a sua eficácia e segurança precisam de ser definitivamente estabelecidas por meio de estudos de maior escala .
Martine Duclos na publicação Exercise and the HPA Axis , de 2016 ,
realça o facto de os processos fisiológicos relacionados ao equilíbrio endócrino serem influenciados por mais do que uma única hormona , de forma integrada em vários níveis , sendo libertadas sob processo de feedback , algumas controladas pela sua própria concentração periférica e outras por outras hormonas ou citocinas circulantes , metabolitos , osmolalidade , etc . Ou seja , o equilíbrio hormonal deve ser avaliado num contexto e não por avaliações hormonais isoladas , o que pode questionar a leitura e terapêutica isolada de um simples eixo hormonal .
Talvez a postura mais sensata de abordagem inicial poderá ser a proposta por Harvard Men ’ s Health Watch , que coloca as seguintes questões : Você já considerou outras razões pelas quais pode sentir fadiga , diminuição da líbido ou outra sintomatologia ? Será que você tem uma dieta nutritiva e equilibrada ? Faz exercício regularmente ? Dorme bem ? Aborde primariamente esses fatores antes de recorrer à terapia hormonal .
Este artigo não deve ser interpretado como um conselho médico . Converse com seu médico ou prestador de cuidados primários antes de fazer qualquer alteração em sua rotina de bem-estar .
Bibliografia
1 . Menard D , Stanish WD . The aging athlete : Am J Sports Med . 1989 ; 17 ( 2 ): 187-96 .
2 . Akira Tsujimura . The Relationship between Testosterone Deficiency and Men ' s Health : World J Mens Health . 2013 ; 31 ( 2 ): 126-35 .
3 . Martín AI , Priego T , López-Calderón A . Hormones and Muscle Atrophy . Adv Exp Med Biol . 2018 ; 1088:207-233 .
4 . Duclos M , Tabarin A . Exercise and the Hypothalamo-Pituitary-Adrenal Axis .
5 . Front Horm Res . 2016 ; 47:12-26 .
30 novembro 2021 www . revdesportiva . pt