Revista de Medicina Desportiva Julho 2020 - Page 28

Rev. Medicina Desportiva informa, 2020; 11(4):26-32. https://doi.org/10.23911/Dossier_varao_2020_julho Dossier de Verão 2020 Prof. Doutor Osvaldo Correia Dermatologista (Centro de Dermatologia Epidermis, Instituto CUF, Porto; Presidente da Associação Portuguesa Cancro Cutâneo. Sol e Pele. Desporto e Proteção As atividades desportivas ao ar livre têm tido um acréscimo significativo na população em geral com vantagens físicas e emocionais inquestionáveis. A Associação Portuguesa de Cancro Cutâneo (APCC; www. apcancrocutaneo.pt) e a Sociedade Portuguesa de Dermatologia e Venereologia (SPDV) têm desenvolvido campanhas de sensibilização para estimular estas práticas a horas mais seguras, ou seja, em horários em que o tamanho da sombra é maior do que a nossa estatura. Isto é particularmente importante nos dias em que o índice de UV (ultravioleta) é elevado (6-7) ou muito elevado (8 a 10), numa escala de 0 a 11, devendo-se evitar nestes dias a prática desportiva entre as 11 e 17 horas. 1 Nos últimos anos, tem-se assistido a níveis de UV muito elevados a partir de Abril, e sobretudo a partir de Maio até ao Verão, por vezes com temperaturas não muito elevadas (www.ipma.pt). Acresce que na prática desportiva este risco ainda se torna maior mesmo em dias de vento ou nevoeiro, onde o índice UV pode estar muito elevado, sendo então o risco de queimaduras maior. O envelhecimento precoce da pele mais exposta ao Sol, nomeadamente pela exposição prolongada, designado por fotoenvelhecimento, caracteriza-se, não só por rugas mais profundas, mas também por manchas acastanhadas (lentigos) ou hipopigmentadas (hipomelanose gutata), perda de brilho, dilatações vasculares e pelo número aumentado de lesões pré-cancro da pele (queratoses actínicas), como de todas as formas de cancros da pele: • carcinoma basocelular, o mais frequente e com malignidade ou invasão local, corresponde a cerca de 75% dos casos, com localização preferencial na face e tronco; • carcinoma espinocelular, o segundo mais frequente (cerca de 20% dos casos), na maioria oriundo de queratoses actínicas não tratadas, que se não tratado tem potencial de invasão ganglionar e à distância, destacando-se as localizações no rosto, couro cabeludo (quando calvo), orelhas e dorso das mãos; • o melanoma, sendo o menos frequente dos cancros da pele (5%), é o mais temível, pois se não tratado leva a metástases e à morte, com localização predominante no tronco, sobretudo no homem. Qualquer um dos cancros da pele, incluindo o melanoma, se diagnosticado e tratado precocemente, tem taxas de cura muito elevadas (acima dos 95%). Nas formas metastizadas estão a surgir novos fármacos que podem prolongar a sobrevida, sobretudo do melanoma e, mais recentemente, do carcinoma espinocelular. É essencial o autoexame para o diagnóstico e tratamento precoce. A APCC no seu site (www.apcancrocutaneo.pt) disponibiliza um conjunto de folhetos informativos que ajudam a distinguir as lesões benignas das pré-malignas e malignas, bem como a forma mais adequada de proceder ao autoexame e ainda folhetos informativos para os desportistas e trabalhadores ao ar livre. Em caso de dúvida, deverá recorrer-se ao dermatologista que com a ajuda da dermatoscopia consegue efetuar mais facilmente distinção entre lesões benignas e malignas e pode efetuar acompanhamento mais adequado dos indivíduos de risco com dermatoscopia digital computorizada. A incidência dos cancros da pele está a aumentar em todo o Mundo, em particular nos países ocidentais. Estima-se que este ano, em 2020, em Portugal surjam mais de 13 000 novos casos de cancros da pele e mais de 1 000 serão novos casos de melanoma. Além da predisposição genética, a exposição solar intencional cumulativa, frequentemente em locais ou alturas do ano em que a pele não teve tempo para se adaptar e sofreu queimaduras solares, são os fatores de risco mais significativos. Risco adicional ocorre nos com história de exposição prévia a solários, que favorecem todas as formas de cancros da pele. 2 Os atletas que praticam desporto ao ar livre, tal como a corrida, ciclismo, ténis, golfe, triatlo, desportos náuticos, entre outros, estão sujeitos a uma carga solar excessiva e por isso têm elevado risco de desenvolver cancros cutâneos. 3 A APCC promoveu vários estudos nacionais em praticantes de modalidades ao ar livre, sobretudo atletismo 4 , e que evidenciam a percentagem elevada de relatos de queimaduras solares e prática de desporto a horas de risco. A utilização de vestuário deve ser incentivada na prática desportiva, em particular o chapéu e polos de manga comprida, que permitem proteger o pescoço com a gola, os braços e antebraços, e sempre que possível proteção adequada dos membros inferiores, não esquecendo os óculos escuros e o uso de protetores solares com fator de proteção solar (FPS) ≥ 30, na forma de creme ou leite, devendo-se evitar as formas muito fluídas, sprays ou brumas invisíveis, mesmo que aparentemente de índices elevados, pois a quantidade real por cm 2 no dia a dia é muito inferior aquela testada aquando da validação do produtos (que é de 2 mg/cm 2 ), mas que nas formas muito fluidas pode atingir 5 a 10 vezes menos a quantidade testada. 26 julho 2020 www.revdesportiva.pt