Revista de Medicina Desportiva Julho 2020 - Page 16

Tema 2 Rev. Medicina Desportiva informa, 2020; 11(4):14-17. https://doi.org/10.23911/contracp_desporto_2020_julho Efeito dos Contracetivos Hormonais na Performance Desportiva Dra. Diana Santos Rocha Interna de 4.º ano de Medicina Geral e Familiar, Pós-graduação em Medicina Desportiva. Usf Magnolia, ACES Loures Odivelas. RESUMO / ABSTRACT As variações hormonais ao longo do ciclo menstrual na mulher atleta influenciam a performance desportiva. Além das hormonas endógenas, também os contracetivos hormonais podem contribuir para a alteração hormonal, dependendo da sua androgenicidade. Alguns estudos relatam a influência do ciclo e dos contracetivos hormonais na massa e na força muscular, temperatura corporal, metabolismo, consumo máximo de oxigénio e composição corporal. A diminuição dos níveis de androgénios pode trazer implicações clínicas na mulher. Os estudos são escassos e não há ainda consenso em relação ao tema. Hormonal variations throughout the menstrual cycle in female athletes influence sports performance. In addition to endogenous hormones, hormonal contraceptives may also contribute to hormonal change, depending on their androgenicity. Some studies report the influence of the cycle and hormonal contraceptives on muscle mass and strength, body temperature, metabolism, maximal oxygen uptake and body composition. Decreased androgen levels may have clinical implications for women. Studies are scarce and there is no consensus in the literature on the subject. PALAVRAS-CHAVE / KEYWORDS Contracetivos hormonais, ciclo menstrual, performance desportiva Hormonal contraceptive, menstrual cycle, exercise performance Introdução O ciclo reprodutivo na mulher é um dos ritmos biológicos mais importantes e complexos. A puberdade, menarca, conceção, gravidez, pós-parto, menopausa são fases de grandes alterações hormonais. A mulher atleta é exposta a constante variação hormonal decorrente da sua fase de vida, para além da possível introdução de hormonas exógenas, os contracetivos hormonais. Gere simultaneamente treinos e competições exigentes, com possíveis efeitos das alterações hormonais decorrentes do ciclo menstrual. O ciclo menstrual afeta vários componentes da performance desportiva na mulher: a função cerebral (alterações no humor, estado cognitivo), o sistema cardiovascular (alteração na frequência e ritmo cardíaco, pressão arterial, volume de fluidos corporais, coagulação, função vascular, atividade do sistema nervoso simpático), sistema respiratório (ventilação por minuto), metabolismo (termorregulação, consumo de oxigénio, disponibilidade de diferentes substratos e metabolismo, balanço ácido-base). Há ainda alterações na força muscular, capacidade aeróbia e anaeróbia, resposta a suplementos ergogénicos, assim como maior risco para lesões de articulações e ligamentos. 1,2 Os contracetivos orais combinados (COC) são usados por 40 a 50% das atletas 3 e o uso de contraceção de longa duração tem aumentado. Apesar do uso frequente de COC, ainda pouco é conhecido em relação ao seu efeito na flutuação hormonal ao longo do ciclo, na resposta ao exercício e na performance desportiva. Diferenças fisiológicas entre sexos Há diferenças fisiológicas entre homens e mulheres que influenciam o desempenho físico. No homem há maior força muscular, concentração plasmática de hormonas anabólicas (testosterona, GH e IGF-1) em repouso ou após esforço intenso 4 , maior quantidade absoluta de eritrócitos, levando a maior capacidade de transporte de O 2 e consequentemente melhor desempenho cardíaco. A nível das alterações hormonais na mulher, estas podem levar à variação de alguns fatores: armazenamento e utilização de substrato energético em diferentes intensidades e volumes de treino, consumo de oxigénio, oxidação de gorduras. 5 Estudos sugerem que a fase do ciclo menstrual pode afetar de maneira significativa o desempenho físico de atletas, tanto no desempenho aeróbio, quanto na força muscular. 6 Tipos de contracetivos hormonais (CH) Os CH são hormonas esteroides exógenas que inibem a ovulação, mantendo estáveis e baixas as concentrações das hormonas sexuais, podendo ser usados por diferentes vias de administração. Os CH podem ser combinados ou ter um progestativo isolado. O tipo e a concentração de cada hormona variam entre contracetivos, levando a diferentes respostas fisiológicas. Os COC são compostos por estrogénios e progestagénios (monofásicos, bifásicos, trifásicos), de acordo com a variação da concentração hormonal. As variações bi e trifásicas surgem como forma de maior aproximação ao ciclo natural da mulher. COC e concentração de androgénios O etinilestradiol (EE) é o componente estrogénico da maioria das pilulas. Os estrogénios naturais utilizados são o valerato de estradiol (E2V) e 17-beta estradiol, os quais apresentam melhor perfil metabólico e ausência de metabolismo hepático, no entanto, são mais caros, têm maior instabilidade farmacodinâmica e há poucas opções disponíveis no mercado. Os progestativos têm atividade progestagénica, estrogénica, androgénica ou mineralocorticoide. Os novos progestativos foram desenvolvidos com um efeito anti-androgénico e anti-mineralocorticoide. 14 julho 2020 www.revdesportiva.pt