Revista de Medicina Desportiva Julho 2020 - Page 10

com suturas transósseas com 2-gause polydioxanone suture (PDS) (Figura 5), e foram reconstruídos os ligamentos esternoclaviculares, a cápsula e o ligamento costoclavicular romboide. Intra-operatoriamente constatou-se a boa redução e a estabilidade articular. A radiografia pós-operatória mostrou restauração da normal anatomia da cintura escapular e foi excluído o pneumotórax. Durante três semanas o doente manteve suspensão braquial, aplicou gelo localmente e esteve medicado com um anti-inflamatório não esteroide. Aos seis meses de seguimento o doente já tinha retomado as suas atividades sem restrição, incluindo a prática de Jiu jitsu, e não apresentava deformidade visível da esternoclavicular. Discussão A raridade desta lesão combinada com possíveis achados clínicos, por vezes subtis, fazem com que o diagnóstico da luxação esternoclavicular seja por vezes difícil. 4-6 As consequên cias desta lesão podem ser devastadoras devido à compressão das estruturas do mediastino. Se a redução fechada estável não for conseguida, a redução aberta e a fixação estão indicadas. São descritas várias técnicas de fixação desta articulação. 3,9 A resseção da região medial da clavícula apresenta maus resultados com limitação da mobilidade do ombro e diminuição da força. O uso de pregos de Steinmann ou fios de Kirschner a cruzar Figura 2 – Evidência de assimetria da clavícula e articulação esternoclavicular. Figura 3 – Imagens de tomografia computorizada expondo a presença de luxação posterior esternoclavicular direita, para o mediastino superior. Edema/hematoma de partes moles envolvente. a articulação esternoclavicular estão contraindicados devido ao risco de migração para estruturas vitais. Estão descritos ainda outros procedimentos, como a fixação da articulação com enxerto de tendão em figura de oito ou o uso de banda de tensão com cabo de metal e sutura com ancoras, entre outras técnicas. 9,10 A redução aberta está ainda recomendada em casos de instabilidade articular crónica. 11,12 Alguns autores reportaram a persistência de instabilidade após redução fechada precoce, especificamente em atletas com esqueleto imaturo onde as placas fisárias estavam desviadas posteriormente ou fraturadas. 11 Após redução fechada ou aberta e estabilização da articulação acrómio- -clavicular é necessário um período de imobilização que varia entre três a oito semanas, dependendo da técnica utilizada e da estabilidade obtida após redução. 11,13 Os resultados descritos na literatura no tratamento desta luxação são favoráveis, tal como Groh descreveu na sua série de follow-up de 5 anos de 21 doentes, resultados bons a excelentes em classificações de dor, força e mobilidade, assim como na capacidade para realizar as atividades diárias e atividade desportiva. 8 Embora estejam descritos bons resultados na literatura, existe pouca evidencia em relação aos resultados funcionais a longo termo. Laffosse et al. analisaram os resultados de 30 casos (23 jogadores de râguebi e sete de desportos de não-contacto). Dos 23 jogadores de râguebi, sete decidiram alterar a atividade desportiva para desportos de menor contacto e apenas um reportou que a sua atividade foi totalmente restritiva devido a esta lesão. Os restantes jogadores retomaram a sua atividade habitual. Não foram reportadas recidivas de Figura 4 – Técnica redução fechada – doente em decúbito dorsal com uma almofada entre os ombros, tração gradual aplicada no membro abduzido, com progressão lenta para a extensão. Por vezes é necessário usar um dispositivo para trazer a clavícula de volta para a sua posição. 3 Figura 5 – Técnica de sutura transóssea com PDS para fixação da articulação esternoclavicular. 3 8 julho 2020 www.revdesportiva.pt