Revista de Medicina Desportiva Janeiro 2021 - Page 10

Discussão
No UEFA Elite Club Injury Study Report 2016 / 17 , as lesões da região da mão , dedos e polegar correspondem a 0,7 % do total de lesões . 6 Para além disso , o não uso de luvas de guarda- -redes confere risco acrescido de lesão a nível da mão . 7
O diagnóstico da lesão do LCU é predominantemente clínico . A história de traumatismo do polegar em abdução e extensão , associado a dor e edema no aspeto medial da articulação MCF deve levantar suspeitas . 1 Ao exame físico , os achados mais frequentes são dor à palpação no aspeto medial da articulação MCF . O edema e a equimose poderão presentes . O teste de stress em valgo da articulação MCF é de suma importância , pois é muito útil para definir se a lesão do LCU é parcial ou completa . 7
Em todos os casos suspeitos de lesão do LCU , a radiografia deve ser efetuada para avaliar a possível presença de fraturas associadas , contudo a radiografia não exclui lesão parcial ou completa do LCU . 8 A ecografia é um excelente exame complementar de diagnóstico devido ao seu baixo custo , rápida execução e possibilidade de efetuar uma avaliação imagiológica dinâmica . 8-10 Para além disso , a ecografia mostrou sensibilidade de 90 % e especificidade de 98 % para a deteção de fraturas dos ossos da mão . 11 Apesar da sensibilidade da ecografia ser de cerca de 100 % para a lesão de Stener , a ressonância magnética ( RM ) constitui o exame gold-standart . 9
Atualmente é amplamente aceite que as lesões completas do LCU devem ser tratadas cirurgicamente devido ao seu baixo potencial de cicatrização espontânea e aos resultados inconsistentes do tratamento conservador , mesmo na ausência da lesão de Stener . 8
O tratamento de reabilitação pós-operatório na lesão de Stener assenta na imobilização durante as primeiras três a quatro semanas , seguida de mobilização passiva do polegar , evitando desvio em valgo . É recomendado manter tala noturna e em atividades ligeiras . À oitava semana está recomendada a descontinuação da tala , exercícios de reforço muscular dinâmico , mobilização progressiva ativa do polegar . Às doze semanas o paciente pode retornar à atividade sem restrição . 12
A reparação cirúrgica da lesão de Stener , acompanhada de tratamento de reabilitação , permitem o retorno à atividade desportiva com nível pré-lesão até 96 % dos casos . 13 Este retorno é recomendado quando o polegar recuperar a força total e a amplitude de movimento completa , ausência de dor e de instabilidade ao teste de stress em valgo . 14 Geralmente , ocorre às doze semanas após a lesão . 14
O maior fator de risco para a pequena percentagem de atletas que tiveram resultados desfavoráveis é o atraso do diagnóstico 15 , o que poderá justificar o ligeiro atraso de duas semanas na recuperação funcional completa deste jogador .
Conclusão
A lesão de Stener não deve ser negligenciada no futebol , sobretudo se o jogador estiver na posição de guarda-redes . O uso de luvas de guarda-redes confere redução de risco de lesão a nível da mão . Tanto no futebol , como na prática clínica de rotina , o diagnóstico preciso e precoce da lesão é importante . Tendo em conta que a ecografia é mais sensível para lesão ligamentar do que a radiografia convencional , e está mais disponível em alguns departamentos médicos dos clubes e hospitais , deve ser incentivada a sua utilização como exame complementar de diagnóstico de primeira linha . Neste caso especifico a ecografia foi fundamental para orientar a decisão clínica de protelar o tratamento conservador e dirigir o jogador para o correto tratamento cirúrgico e de reabilitação com reinício da atividade desportiva com menor probabilidade de limitação .
Os autores revelam não ter conflitos de interesses , assim como garantem a originalidade e a não publicação prévia deste texto .
Correspondência Emanuel Silva emanuelmedicina @ gmail . com
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