Revista de Medicina Desportiva Informa Setembro 2019 - Page 27

casos muito mais raros de celulite orbitária ou pré-septal ou dacriocisti- tes agudas, em que há uma pálpebra extremamente edemaciada, com dor periocular ou dor forte localizada no canto interno entre o olho e a base do nariz que necessitam de trata- mento adequado. Por fim, há aqueles casos de olho vermelho agudo indolor, sem qual- quer perda de visão e ausência de qualquer outro tipo de sintomatolo- gia. Nestes casos, estaremos perante uma hemorragia conjuntival, que é benigna, não necessitando de qual- quer acompanhamento especializado. O que fazer no caso específico de traumatismo ocular? • A avaliação básica da acuidade visual é essencial em todos os casos, sendo que perdas de visão obrigam a intervenções precoces; • Nalguns casos poderá haver ulce- ração de córnea/ceratite, que é relativamente comum, e que cica- triza rapidamente com cobertura tópica antibiótica. Também poderá haver um corpo estranho que se aloja na superfície ocular necessi- tando a sua remoção; • Se for notado hifema (sangue den- tro do olho que pode apresentar um nível de acumulação na parte central interna entre a córnea e o plano da íris) geralmente é uma indicação de traumatismo grave, sendo muitas vezes acompanhado por lesões estruturais do globo ocular; • Uma história de algo pontiagudo, mesmo muito pequeno, com hemorragia localizada na conjun- tiva e/ou visão turva poderá suge- rir perfuração ocular e até corpo estranho intraocular. Embora raro, há casos de perfuração ocular com retenção de corpo estranho quase microscópico dentro do globo ocular e cujo atraso de horas no diagnóstico pode levar a cegueira absoluta e irreversível. • Nos casos em que o olho é atin- gido por líquidos potencialmente corrosivos é obrigatória a lavagem imediata e copiosa do olho, no local, com água ou soro fisiológico, seguido de transporte para uma unidade hospitalar. Se a queima- dura tiver sido ocasionada por substância alcalina essa primeira lavagem deverá ser abundante, pois a substância corrosiva poderá manter-se em atividade por muitas horas. Nestes casos é importante, sempre que possível, que seja identificada a substância em causa para que os serviços especializados possam decidir pela terapêutica mais adequada. Aconselhamento final Embora a maior parte dos casos de olho vermelho sejam de evolução benigna temos de ter sempre em mente a eventualmente de uma situação grave. Com exceção da situação já descrita de olho ver- melho súbito, sem qualquer sinto- matologia ou sinais que apontem para alterações visuais (hemorragia conjuntival) e que não necessita de qualquer tratamento, pois é completamente benigna e resolve totalmente em 10 a 15 dias, todos os outros casos em que há apresenta- ção de olho vermelho, com sintoma- tologia recente e sem história cró- nica de doença benigna (blefarites com envolvimento muito comum do tecido conjuntival) devem ser envia- dos para urgência especializada ou consulta por oftalmologista. Pediatric Sports – and Recreation-Related Eye Injuries Treated in US Emergency Departments 1 Este estudo teve como objetivo observar as características epi- demiológicas das lesões oculares relacionadas com o desporto e atividades de recreação nas crian- ças e jovens com menos de 17 anos de idade, dos EUA, ocorridas entre 1990 e 2012. Nesse período foram assistidas cerca de 441800 nos serviços de urgência, sendo a incidência igual a 26.9 lesões / 100 mil, ou seja, mais de 19 mil por ano, mais de 52 por dia. Três quartos das lesões ocorreram em rapazes e foi nas faixas etárias dos 10 aos 14 e dos 15 aos 17 anos de idade que ocorreram mais lesões. As lesões mais frequen- tes foram as abrasões da córnea (27.1%), as conjuntivites (10.0%), a maioria associadas à natação, e corpos estranhos oculares (8.5%). Com os equipamentos de recreio e os trampolins houve muitas abrasões (30.6%) e corpos estra- nhos (29.3%). Houve necessidade de hospitalização em 4.7% das situações, isto é, em mais de 20700 lesões. O basquetebol foi o desporto onde mais lesões houve (15,9%), seguido do beisebol e sof- tball (15.2%) e das atividades com armas sem ser de fogo (10.6%). Enquanto que com estas armas as lesões aumentaram substan- cialmente no período considerado (168.8%), e contribuíram com 48.5% das hospitalizações, a taxa global das outras lesões diminui ligeiramente. Recorde-se que este estudo foi realizado nos EUA, pelo que os resultados não podem ser extrapolados para os países devido, também, a popularidade de alguns desportos. Contudo, realça a necessidade de maior vigilância por parte dos pais e treinadores, assim como a pro- dução de legislação que obrigue à utilização de equipamento de proteção. BR. 1. Krystin N. Miller, et al. Pediatrics. 2018; 141(2):e20173083. Figura 3 – Hifema Figura 4 – Corpo estranho na córnea (limalha) Revista de Medicina Desportiva informa setembro 2019 · 25