Revista de Medicina Desportiva Informa Novembro 2012 - Page 29

do exame cuidadoso e de estudos auxiliares de diagnóstico são obrigatórios, sob pena do subdiagnóstico com facilitação de lesão futura. O atleta frequentemente sofre estiramento com dor na coxa, concomitante com um estado de contratura muscular tipo caibra, valorizando a dor pelo estado de contratura e não pela lesão dos ITs, admitindo que com repouso e relaxamento a situação melhora. Esta situação pode já ocorrer com rotura de algumas fibras muscular e desorganização tecidular, o que provoca cicatrização anómala e repercussões funcionais musculares. Dr. Henrique Jones A referência a contratura muscular (muitas vezes utilizada por atletas e médicos, entre outros) configura desde logo 2 conceitos. O 1.º é situação espástica localizada do músculo em virtude de uma contração muscular assíncrona de um grupo de fibras e o 2.º a noção de benignidade face á ausência de sensação por parte do atleta do típico rasgar, “da fisgada”. Assim, a referência a contratura apenas significa desconforto espástico do músculo, sem lesão anatómica, mas deveria ser substituídoa por mialgia espástica. Para melhor esclarecer o diagnóstico, recorre-se aos exames subsidiários de diagnóstico. Dr. Joaquim Agostinho, qual a utilidade da ecografia? Dr. Joaquim Agostinho Como em quase toda a patologia muscular, sobretudo aguda, a ecografia, dada a boa acuidade diagnóstica (sobretudo quando efetuada por operadores experientes e pelo menos 48 horas após o incidente), relativo baixo custo e acessibilidade, é o meio auxiliar de diagnóstico de primeira escolha para estudo deste tipo de patologias. Será útil a existência de um ecógrafo junta de uma equipa desportiva? Dr. Joaquim Agostinho Atendendo à longa curva de aprendizagem, ao elevado custo de um aparelho com boa resolução espacial, e ao facto de poder existir algum grau de enviesamento diagnóstico quando o médico prescritor e o que efetua o exame são os mesmos (tenderá a confirmar a sua suspeita clínica), entendemos tal não ser necessário quando existir alguma facilidade no acesso a local de referência para execução destes exames. … e a RMN? Os sinais inflamatórios, o edema, são agora mais visíveis … Dr. Joaquim Agostinho A RMN é atualmente o gold standard no diagnóstico deste tipo de patologia. No entanto, o seu elevado custo e por vezes dificuldade de acesso, fazem com que deva ser reservada para os casos em que desde o início se suspeita de lesão grave, ou então quando a evolução clínica não se faz de acordo com o que o binómio clínica / ecografia faziam prever. Nas primeiras 48–72 horas após a lesão, qual deve ser a atuação imediata? Dr. Henrique Jones No caso de lesões mais graves (grau II / II da classificação de Durey e Carlson): repouso inicial (joelho em flexão), compressão e descarga (até ao 5º dia), seguida por mobilização suave a partir desta data. Durante todo esse período - gelo local, 20 minutos, com intervalos de 1 hora. A utilização da contensão, com uma simples coxa elástica é necessária … importante para minimizar a eventual hemorragia? Dr. Gonçalo Borges Eu uso sistematicamente a contensão elástica porque mantém o controlo sobre o atleta (por vezes ele esquece-se que tem uma lesão) mas, principalmente, porque o método PRICE se mantém como ação importante para o tratamento. O edema e a hemorragia, quando existem, são fatores deletérios sobre qualquer cicatrização porque afastam as fibras musculares entre si e afastam-nas da zona mais vascularizada levando a sofrimento isquémico. Todos os fatores que facilitem a remoção destas situações são benéficos, pelo que a compressão é o fator mecânico mais importante nesta situação. O pseudoquisto é uma das complicações. Porque é que tal acontece? Qual o tratamento e qual o melhor momento para o realizar? Dr. Henrique Jones O pseudoquisto muscular, ou hematoma quístico, é uma complicação de uma lesão muscular não diagnosticada, ou diagnosticada tardiamente (3–6 meses), sem tratamento inicial, ou com tratamento inicial desajustado, em que houve organização e “capsulização” do hematoma intramuscular. O tratamento, na minha opinião, é cirúrgico com os objetivos de drenagem do hematoma, excisão em bloco da formação capsular envolvente, excisão do tecido fibronecrótico local e restauro da continuidade das fibras musculares. O melhor momento para realização da cirurgia é logo que o diagnóstico se confirme face à limitação funcional impeditiva em termos desportivos. E o que dizer em relação à miosite ossificante? Dr. Henrique Jones A miosite ossificante é outra das complicações (felizmente rara) resultante da agressão muscular, organização do hematoma e evolução para calcificação, num indivíduo muitas vezes predisponente. Normalmente são assintomáticas, mas a miosite ossificante sintomática poderá ser limitativa para a atividade desportiva. O tratamento com Revista de Medicina Desportiva informa Novembro 2012 · 27