Revista de Medicina Desportiva Informa Março 2013 - Page 22

Tema 1

Rev . Medicina Desportiva informa , 2013 , 4 ( 2 ), pp . 20 – 24

Anafilaxia induzida pelo exercício físico

Dra . Diana Silva 1 , Prof . Dr . Luís Delgado 1 , 2 , Prof . Dr . André Moreira 1 , 2
1
Consulta de Alergia , Asma & Desporto , Serviço de Imunoalergologia , Centro Hospitalar de Hospital São João ; 2 Serviço e Laboratório de Imunologia , Faculdade de Medicina da Universidade do Porto
RESUMO / ABSTRACT
A anafilaxia induzida pelo exercício é uma doença rara , despoletada ou relacionada com a atividade física ou desportiva , que pode ser potencialmente fatal . O consumo prévio de alguns alimentos , alguns tipos fármacos e a exposição a fatores ambientais ( ex . temperaturas extremas ) são alguns cofatores associados a esta entidade . O diagnóstico permite o estudo etiológico e implementação de medidas adequadas para a prevenção . A sua abordagem terapêutica passa pelo tratamento na fase aguda com adrenalina intramuscular auto-injetável e também por uma estratégia preventiva dirigida a mudança de comportamentos , a qual implica um forte empenho educacional do doente , dos seus conviventes , família , cuidadores e colegas de equipa .
Exercise-induced anaphylaxis is a rare disease , activated or related with the physical or sporting activity that can be potentially fatal . Food ingeston , the previous consumption of remedies and the exposition to hot or cold temperatures are some cofactors associated with this entity . The diagnosis allows to ascertain its etiology and to implement preventive measures . Its therapeutic goal includes the treatment in the acute phase with auto-injectable adrenalin and also a directed preventive strategy in order to change behaviors , to which it is associated a strong commitment to educate the patient , the family and the teammates .
PALAVRAS-CHAVE / KEYWORDS
Anafilaxia , anafilaxia induzida pelo exercício ; atletas Anaphylaxis , exercise-induced anaphylaxis , athletes
Em que consiste ?
Anafilaxia é uma reação de hipersensibilidade sistémica grave , com início rápido e que pode levar à morte . O seu diagnóstico é baseado em critérios clínicos ( tabela 1 ) e no seu estudo devem confirmar-se os fatores etiológicos e potenciais cofatores da reação 1 . A anafilaxia induzida pelo exercício ( EIA ) foi reconhecida como entidade clínica em 1980 por Sheffer , sendo uma situação clínica rara , imprevisível e que partilha as mesmas caraterísticas clínicas de uma reação anafilática 2 , 3 . Enquadra-se no grupo das alergias físicas e pode ser despoletada por exercício vigoroso ou ligeiro , por vezes associando-se a outros cofatores , como ingestão de alimentos , fármacos , exposição polínica ou picadas de insetos em doentes alérgicos , bem como a exposição a condições extremas de temperatura ou humidade , stress ou mesmo variações hormonais 4 .
A prevalência de uma reação anafilática ao longo da vida estima-se estar entre os 0,05 a 2 %, das quais apenas 5-15 % são despoletadas pelo exercício 1 , 5 . Mais de metade das pessoas com EIA reporta uma associação com a ingestão de alimentos até 4 a 6 horas antes da prática de exercício . Por este motivo , e com objetivo descritivo , divide-se a EIA em : 1 ) EIA não dependente de alimentos ( EIAn ); 2 ) EIA dependente de alimentos ( FDEIA ), a qual se subdivide em dependente de um alimento específico ( sFDEIA ) e sem dependência de um alimento específico ( nsFDEIA ), sendo esta independente do tipo ou classe de alimentos ingeridos .
Quais os mecanismos subjacentes ?
Anafilaxia e urticária ocorrem após a libertação massiva de mediadores , como a histamina , leucotrienos e prostaglandinas , que promovem a vasodilatação , aumentam a permeabilidade vascular e contraem a musculatura brônquica . Na EIA a libertação destes mediadores foi demonstrada , contudo os mecanismos fisiopatológicos que lhe deram origem não se encontram ainda esclarecidos . Pode ocorrer em todas as idades , sendo mais predominante em adolescentes e adultos jovens , e em qualquer sexo , apesar de alguns estudos epidemiológicos mostrarem predominância em mulheres ( rácio de 2:1 ). Relaciona-se com qualquer tipo de atividade física independente da sua intensidade e pode estar associada a outros cofatores 6 , 7 .
Tabela 1 – Critérios clínicos de diagnóstico de anafilaxia ( adaptado de Sampson HA , et al ; J Allergy Clin Immunol 2006 ; 117:391-7 and Simons FE , et al . World Allergy Organ J . 2011 Feb ; 4 ( 2 ): 13-37 .
1 . Início súbito ( minutos a algumas horas ) com envolvimento da pele e / ou mucosas ( ex . urticária , eritema ou prurido generalizado , edema dos lábios , língua ou úvula ) e pelo menos 1 dos seguintes : a . Início súbito de sinais ou sintomas respiratórios ( ex . dispneia , pieira / broncospasmo , estridor , hipoxémia ) b . Hipotensão ou sintomas associados a disfunção de órgão ( ex . hipotonia , colapso , síncope , incontinência )
2 . Ocorrência de 2 ou mais dos seguintes após exposição a um alergénio provável para aquele doente ( minutos a algumas horas ): a . Sinais ou sintomas pele , mucosa ( ex . urticária , eritema ou prurido generalizado , edema dos lábios , língua ou úvula ) b . Início súbito de sinais ou sintomas respiratórios ( ex . dispneia , pieira / broncospasmo , estridor , hipoxémia ) c . Hipotensão ou sintomas associados a disfunção de órgão ( ex . hipotonia , colapso , síncope , incontinência ) d . Sintomas gastrintestinais súbitos ( ex . dor abdominal em cólica , vómitos )
3 . Hipotensão após exposição a um alergénio conhecido para aquele doente ( minutos a algumas horas ): a . Lactentes e crianças : PA sistólica reduzida ( específica para a idade ) ou diminuição da PA sistólica superior a 30 %** b . Adultos : PA sistólica inferior a 90 mmHg ou diminuição do valor basal do paciente superior a 30 %
DEMI – Débito expiratório máximo instantâneo ; PA – Pressão arterial ** PA sistólica diminuída para crianças define-se : < 70 mmHg , se menor de 1 ano ; menor que ( 70 mmHg + [ 2x idade ]) dos 1 aos 10 anos ;< 90 mmHg dos 11 aos 17 anos
20 · Março 2013 www . revdesportiva . pt
Tema 1 Rev. Medicina Desportiva informa, 2013, 4 (2), pp. 20–24 Anafilaxia induzida pelo exercício físico Dra. Diana Silva1, Prof. Dr. Luís Delgado1,2, Prof. Dr.André Moreira1,2 Consulta de Alergia, Asma & Desporto, Serviço de Imunoalergologia, Centro Hospitalar de Hospital São João; 2Serviço e Laboratório de Imunologia, Faculdade de Medicina da Universidade do Porto 1 com a ingestão de alimentos até 4 a 6 horas antes da prática de exercício. Por este motivo, e com objetivo descritivo, divide-se a EIA em: 1) EIA não dependente de alimentos (EIAn); 2) EIA dependente de alimentos (FDEIA), a qual se subdivide em dependente de um alimento específico (sFDEIA) e sem dependência de um alimento específico (nsFDEIA), sendo esta independente do tipo ou classe de alimentos ingeridos. RESUMO / ABSTRACT A anafilaxia induzida pelo exercício é uma doença rara, despoletada ou relacionada com a atividade física ou desportiva, que pode ser potencialmente fatal. O consumo prévio de alguns alimentos, alguns tipos fármacos e a exposição a fatores ambientais (ex. temperaturas extremas) são alguns cofatores associados a esta entidade. O diagnóstico permite o estudo etiológico e implementação de medidas adequadas para a prevenção. A sua abordagem terapêutica passa pelo tratamento na fase aguda com adrenalina intramuscular auto-injetável e também por uma estratégia preventiva dirigida a mudança de comportamentos, a qual implica um forte empenho educacional do doente, dos seus conviventes, família, cuidadores e colegas de equipa. Exercise-induced anaphylaxis is a rare disease, activated or related with the physical or sporting activity that can be potentially fatal. Food ingeston, the previous consumption of remedies and the exposition to hot or cold temperatures are some cofactors associated with this entity. The diagnosis allows to ascertain its etiology and to implement preventive measures. Its therapeutic goal includes the treatment in the acute phase with auto-injectable adrenalin and also a directed preventive strategy in order to change behaviors, to which it is associated a strong commitment to educate the patient, the family and the teammates. PALAVRAS-CHAVE / KEYWORDS Anafilaxia, anafilaxia induzida pelo exercício; atletas Anaphylaxis, exercise-induced anaphylaxis, athletes Em que consiste? Anafilaxia é uma reação de hipersensibilidade sistémica grave, com início rápido e que pode levar à morte. O seu diagnóstico é baseado em critérios clínicos (tabela 1) e no seu estudo devem confirmar-se os fatores etiológicos e potenciais cofatores da reação1. A anafilaxia induzida pelo exercício (EIA) foi reconhecida como entidade clínica em 1980 por Sheffer, sendo uma situação clínica rara, imprevisível e que partilha as mesmas caraterísticas clínicas de uma reação anafilática2,3. Enquadra-se no grupo das alergias físicas e pode ser despoletada por exercício vigoroso ou ligeiro, por vezes associando-se a outros cofatores, como ingestão de alimentos, fármacos, exposição polínica ou picadas de insetos em doentes alérgicos, bem como a exposição a condições extremas de temperatura ou humidade, stress ou mesmo variações hormonais4. A prevalência de uma reação anafilática ao longo da vida estima-se 20 · Março 2013 www.revdesportiva.pt estar entre os 0,05 a 2%, das quais apenas 5-15% são despoletadas pelo exercício1,5. Mais de metade das pessoas com EIA reporta uma associação Quais os mecanismos subjacentes? Anafilaxia e urticária ocorrem após a libertação massiva de mediadores, como a histamina, leucotrienos e prostaglandinas, que promovem a vasodilatação, aumentam a permeabilidade vascular e contraem a musculatura brônquica. Na EIA a libertação destes mediadores foi demonstrada, contudo os mecanismos fisiopatológicos que lhe deram origem não se encontram ainda esclarecidos. Pode ocorrer em todas as idades, sendo mais predominante em adolescentes e adultos jovens, e em qualquer sexo, apesar de alguns estudos epidemiológicos mostrarem predominância em mulheres (rácio de 2:1). Relaciona-se com qualquer tipo de atividade física independente da sua intensidade e pode estar associada a outros cofatores6,7. Tabela 1 – Critérios clínicos de diagnóstico de anafilaxia ( adaptado de Sampson HA, et al; J Allergy Clin Immunol 2006;117:391-7 and Simons FE, et al. World Allergy Organ J. 2011 Feb;4(2):13-37. 1. Início súbito (minutos a algumas horas) com envolvimento da pele e/ou mucosas (ex. urticária, eritema ou prurido generalizado, edema dos lábios, língua ou úvula) e pelo menos 1 dos seguintes: a. Início súbito de sinais ou sintomas respiratórios (ex. dispneia, pieira / broncospasmo, estridor, hipoxémia) b. H  ipotensão ou sintomas associados a disfunção de órgão (ex. hipotonia, colapso, síncope, incontinência) 2. Ocorrência de 2 ou mais dos seguintes após exposição a um alergénio provável para aquele doente (minutos a algumas horas): a. Sinais ou sintomas pele, mucosa (ex. urticária, eritema ou prurido generalizado, edema dos lábios, língua ou úvula) b. I nício súbito de sinais ou sintomas respiratórios (ex. dispneia, pieira / broncospasmo, estridor, hipoxémia) c. H  ipotensão ou sintomas associados a disfunção de órgão (ex. hipotonia, colapso, síncope, incontinência) d. Sintomas gastrintestinais súbitos (ex. dor abdominal em cólica, vómitos) 3. Hipotensão após exposição a um alergénio conhecido para aquele doente (minutos a algumas horas): a. Lactentes e crianças: PA sistólica reduzida (específica para a idade) ou diminuição da PA sistólica superio H JY[ΈH\0XH[\[܈HLH[Z[Zp[܈\[XY[B\\[܈H BSRH8$0X]^\]0ܚ[p^[[[[0蛙[H8$\\\X[H\0XH[Z[pYH\HܚX[\Y[K\N HY[܈H H[Y[܈]YH  –̞YYWJH H[ L[L LH[ M[‚