Revista de Medicina Desportiva Informa Maio 2020 - Page 25

pelve para um lado e para o outro. Neste caso, a altura é excessiva e obriga o ciclista a fazer mais força prolongada no sentido de chegar ao pedal que está demasiado em baixo (Figura 2 – A). Contudo, deve haver alguma oscilação (Figura 2 – B) para evitar a transferência de potência da parte superior da coluna para os membros inferiores. Surpreendentemente, alterações de cerca de 1mm poderão fazer diferenças neste movimento pélvico, aspeto que poderá ser importante nos ciclistas profissionais. 7 Também no plano frontal deve anular-se o valgo excessivo (Figura 3 A) no sentido de melhorar o alinhamento (Figura 3 B). 6 O reforço dos músculos médio nadegueiros é fundamental para a prossecução deste objetivo. Entretanto, a revisão sistemática publicada em 2018, elaborada no sentido de determinar fatores associados com a dor no joelho de ciclistas, refere que não foram encontradas diferenças (em relação aos joelhos assintomáticos) no que se refere ao ângulo de flexão do joelho e ás forças tibiofemoral e patelofemoral. 10 Constataram, contudo, que os ciclistas com dor no joelho tinham maior adução do joelho (valgo), maior ângulo de dorsiflexão dos tornozelos e diferenças de ativação dos músculos isquiotibiais e quadricípites (vastos interno e externo). 10 A posição do selim, mais anterior ou posterior, foi estudada por Menard, M. e colaboradores. 8 A amplitude de variação da posição variou 6cm e os ciclistas pedalaram na potência de 200w com a cadência de 90rpm. Constataram que avançar o selim não teve influência nas forças patelofemorais. Contudo, a o pico de força e a força média sobre a articulação patelofemoral foi 14 e 15% superior na posição posterior, selim colocado mais atrás, em relação à posição anterior, respetivamente. O pico de força esteve relacionado com a contração excêntrica dos músculos posteriores. 8 Os resultados são diferentes dos encontrados num estudo publicado em 2013, onde a alteração da posição do selim, para a frente ou para trás, não alterou substancialmente as forças compressivas patelofemorais (1-4%) ou tibiofemorais (1-3%), mas afetou a força de cinzelamento na articulação tibiofemoral na posição para trás: 19% em relação às posição preferida e 26% em relação à posição anterior. 11 A utilização de ciclistas profissionais e a realização do teste a alta intensidade poderão justificar algumas das diferenças encontradas. No entanto, e de um modo geral, estes dados são interessantes para a prevenção da dor anterior do joelho, para a prevenção da síndrome patelofemoral, pelo que a colocação do selim na posição exata deve ser considerada. Conclusão Praticar ciclismo é interessante e permite melhor a condição aeróbia, controlar o peso e a ajuda na prevenção de doenças relacionadas com o consumo. Contudo, não é desprovido de riscos, quer decorrentes das quedas, quer aquelas que surgem por uso excessivo, num contexto também de mal adaptação ao treino e/ou à bicicleta. Neste tipo de exercício ou de desporto deve haver adaptação mútua: o praticante deve adaptar-se à bicicleta e a bicicleta deve estar adaptada ao praticante. Corrigir as dimensões da bicicleta de acordo com a estatura do praticante é fundamental, pois pequenos desvios milimétricos poderão ser causa de lesões de sobre-uso após milhares de pedaladas. Quando surgem, tanto o praticante, como a bicicleta devem ser tratados. Em relação a esta,0 basta rever as medições e constatar se são as adequadas para aquele praticante. Use-se a bicicleta como se usam as sapatilhas: adaptação perfeita. Depois, como outras coisas na vida, a bicicleta não se empresta aos amigos. Bibliografia 1. Swart, Jeroen et al. Cycling Biomechanics Optimization—the (R) Evolution of Bicycle Fitting. Current Sports Medicine Reports. 2019; 18(12):490-496. 2. Ansari M et al. Mountain Biking Injuries. Curr Sports Med Rep. 2017; 16(6):404-412. 3. Bahr R. No injuries, but plenty of pain? On the methodology for recording overuse symptoms in sports. Br J Sports Med. 2009; 43:966-972. 4. C. A. Wilber et al. An Epidemiological Analysis of Overuse Injuries Among Recreational Cyclists. Int J Sports Med. 1995; 16(3):201-206. 5. Dahlquist M, Leisz MC, Finkelstein M. The club-level road cyclist: injury, pain, and performance. Clin J Sport Med. 2015; 25:88-94. 6. Paul Visentini. Overuse injuries in cycling. Aspetar Sports Medicine Journal. https:// www.aspetar.com/journal/upload/ PDF/20161211145932.pdf. 7. Leavitt TG, Vincent HK. Simple Seat Height Adjustment in Bike Fitting Can Reduce Injury Risk. Curr Sports Med Rep. 2016; 15(3):130. 8. Menard M et al. Influence of saddle setback on knee joint forces in cycling. Sports Biomech. 2020 April; 19(2):245-257. 9. Brukner & Khan’s Clinical Sports Medicine, 5 th edition, Volume 2, Injuries, McGraw-Hill, Sydney, 2017. Artist: Vicky Earle. 10. Bini RR, Flores Bini A. Potential factors associated with knee pain in cyclists: a systematic review. J Sports Med. 2018; 9:99-106. 11. Bini RR. Effects of moving forward or backward on the saddle on knee joint forces during cycling. Phys Ther Sport. 2013; 14(1):23-7. A B Figura 1 – Medição do ângulo do joelho na parte inferior da pedalada entre 25 e 35° 7 Figura 2 – Queda pélvica excessiva (A) e mínima (B) 7 Figura 3 – No plano frontal deve-se anular o valgo excessivo (A) e melhorar o alinhamento (B) 9 Revista de Medicina Desportiva informa maio 2020· 23