Revista de Medicina Desportiva Informa Julho 2019 - Page 25

diferente nestes casos”, dirão alguns, mas não deixa de ser uma vantagem natural. Mas existe limite mínimo de peso na ginástica para a competição … Este critério é, aparentemente, bem aceite, embora discriminatório, pois pretende-se defender a saúde da atleta. Mas estará Semenya doente ou competir com estes valores farão perigar a sua saúde? Todos teremos uma opinião e a conclusão nunca chegará. A questão é controversa. Aliás, a decisão dos juízes do TAS não foi unânime: dois votos a favor e um contra. Para já ficamos a saber que agora “os atletas são divididos em homem e mulher de acordo com os níveis de testosterona”, o que poderá complicar o tema sobre a participação dos atletas transexuais. Mais uma situação para as entidades reguladoras resolverem. O que está em causa é a regula- mentação publicada pelo organismo que governa o atletismo mundial: IAAF Eligibility Regulations for the Female Classification – Athletes with Differences of Sex Development, publi- cado a 01, mas com efeito a partir de 8 Maio de 2019. A regulamentação apenas é aplicável para as distân- cias entre 400 e 1600 metros, e as mulheres para participarem nos chamados Eventos Restritos Internacio- nais devem respeitar três critérios: • ser legalmente reconhecida como mulher ou como intersexual • reduzir os seus níveis de testos- terona para menos de 5 nmole/l por um período contínuo de pelo menos seis meses • manter os níveis de testosterona abaixo de 5 nmole/l continua- mente. Curiosamente o documento permite a competição nas provas masculinas e em eventos não internacionais. Em relação às provas nas distâncias de 1500 e de 1600 metros, devido à ausência de evidência forte, deverá ser adiada a implementação da regra até haver mais e melhor evidência. As corridas de 100m, 200m e 100m barreiras são também exceções e não contam para esta deliberação. Agora, a atleta de pista que queira correr a distân- cia de 1500m deve ter níveis sanguí- neos normas de testosterona durante os seis meses que precedem a prova. O Campeonato do Mundo de atletismo será em setembro, em Doha … Quem não começou o “tratamento” já não será elegível para participar. Depois, quantas vezes deve tirar sangue para con- trolo analítico e quem paga estas análises? E deverá ser num laborató- rio acreditado pela IAAF (na África do Sul)? Esta regra deveria ter sido apli- cada a partir de 1 de novembro • Seria mais fácil para vós se eu não fosse tão rápida? • Seria mais simples se eu parasse de vencer? • Vocês ficariam mais confortá- veis se eu fosse menos orgu- lhosa? • Vocês gostariam que eu não tivesse trabalhado tão duro? • Ou apenas não corresse? • Ou escolhido outro desporto? (campanha publicitária da empresa Nike com a atleta Caster Semenya) Antes do caso Semenya tinha havido o de Dutee Chand. Esta é uma atleta velocista, nascida em 1996 numa aldeia pobre da Índia, onde o desporto dominante é o criquete. O atletismo não tinha tradição, mas para aquela jovem ambiciosa o praticar atletismo… era barato. Também aparesentava níveis naturais elevados de testosterona e foi suspensa pela Federação Indiana de Atletismo em julho de 2014. Tinha 18 anos e tinha também níveis de testoste- rona semelhantes aos dos homens. Naquele ano foi a campeã nacional nas provas de 100 e de 200 metros. Corria descalça … era pobre, mas era uma campeã. Em 23 de março inicia a sua luta contra a IAAF por causa dos testes para avaliação o género dos atletas. O Tribunal Arbitral do Desporto (TAS) dá-lhe a prenda desejada: a versão original do regulamento da IAAF é suspensa por dois anos, a qual exigia que as atletas com níveis elevados de testosterona tomas- sem medicação para normaliza- ção dos níveis. De acordo com o acordão do TAS, o regulamento da IAAF era discriminatório à luz da Carta Olímpica, da Carta da IAAF e das leis do Mónaco, país onde a sede da IAAF está sediada (Sentença n. 2014/A/3759, de 24 de julho de 2015). Foi assim possível participar nos Jogos Olímpicos Rio 2016. Antes de iniciar os Jogos já tinha ganho. Contudo, não conseguiu passar das provas eliminatórias. As duas medalhas de ouro foram ganhas nos Jogos Asiáticos de Atletismo na categoria júnior(200m e 4 x 400 metros). Revista de Medicina Desportiva informa julho 2019 · 23