Revista de Medicina Desportiva Informa Julho 2017 - Page 4

Rev . Medicina Desportiva informa , 2017 , 8 ( 4 ), p . 2

Entrevista

Prof . Doutor Manuel Carrageta
Cardiologista e Presidente da Fundação Portuguesa de Cardiologia
Quais foram os objetivos da Fundação Portuguesa de Cardiologia ( FPC ) com o simpósio “ O coração no desporto ” realizado em maio ?
Tivemos em atenção que os portugueses são o povo da União Europeia que surge em todos os inquéritos como aquele que menos atividade física pratica , talvez porque , enquanto povo , ainda não assumimos a forte relação que existe entre o exercício , a saúde e o bem-estar . Esta ideia foi reforçada pelos estudos que a Fundação tem realizado , que mostram que , apesar de todas as campanhas de sensibilização para a importância da atividade física , dois terços dos Portugueses são sedentários . Por outro lado , metade dos portugueses que são sedentários , não estão motivados para o deixar de ser , pois acham que não tem interesse praticar atividade física .
Que valor atribui a FPC ​à atividade física e ao desporto no contexto da prevenção cardiovascular ?
A atividade física regular reduz o risco de ataques cardíacos em mais de 30 %, um benefício que pode ser comparável , por exemplo , ao obtido com a terapêutica redutora do colesterol . Por outro lado , a inatividade física confere um risco semelhante ao da obesidade e do tabagismo . Julga-se que esta redução do risco se deve a vários mecanismos dos quais refiro , em seguida , os mais importantes : a ) A atividade física regular é uma das melhores maneiras de reduzir a tensão arterial . Em média , a prática regular de atividade física aeróbia reduz a tensão arterial sistólica em cerca de 10 mmHg e a diastólica em 5 mmHg , o que é suficiente para normalizar os valores da tensão arterial em grande número de indivíduos com tensões ligeiramente elevadas . b ) A atividade física é uma das medidas que aumenta o colesterol das HDL . É conhecida a relação inversa entre os níveis do colesterol das HDL e o risco de doença cardiovascular , ou seja , quanto maiores forem os níveis das HDL menor será o risco de ataque cardíaco .
c ) A atividade física aumenta a sensibilidade dos tecidos periféricos à insulina , o que melhora todo o metabolismo da glicose que está profundamente perturbado na diabetes . d ) Está hoje claramente provado que a atividade física retarda o processo de envelhecimento , sendo atualmente uma das poucas medidas eficazes , a par com uma alimentação moderada ( restrição calórica ), a propiciar um aumento não só da longevidade como da qualidade de vida . Está estimado que , em média , a uma hora de atividade física corresponde um ganho de duas horas de aumento da esperança de vida .
Como propõe resolver o problema dos programas de reabilitação cardíaca , que urge disseminar ?
A reabilitação cardíaca constitui , na sua essência , a modalidade mais avançada e completa de prevenção cardiovascular . Este programa de reabilitação , que inclui o treino físico , visa a melhoria do estilo de vida , o controlo dos fatores de risco , o apoio psicológico e a reintegração social dos doentes . Tem como objetivos otimizar a recuperação funcional do doente que sofreu um acidente cardiovascular , melhorar a sua qualidade de vida e reduzir o risco de recorrência de complicações cardíacas , incluindo o de morte prematura . Um doente que sobreviva um enfarte do miocárdio ou a uma cirurgia cardíaca , após completar um programa de reabilitação cardíaca , adquire hábitos saudáveis , aprende a viver com a doença e , na verdade , fica mais saudável e confiante para a vida . Por isso , é responsabilidade de todos os médicos recomendar a todos os doentes elegíveis a participação num programa de reabilitação cardíaca . O papel da reabilitação cardíaca como componente integrante obrigatório dos cuidados cardiológicos a prestar aos doentes portugueses deve ser reconhecido pelas autoridades de saúde como uma prioridade nacional .
O que levou a FPC a lançar recentemente os Prémios Eusébio da Silva Ferreira em parceria com a SPC e a Associação ArtEusébioHeart ?
Eusébio , uma figura lendária do desporto , de âmbito mundial , morreu de insuficiência cardíaca que é uma patologia que afeta cerca de 400 000 portugueses e está em franco aumento . É já hoje a maior responsável pelo internamento hospitalar dos indivíduos com mais de 65 anos . O prognóstico da insuficiência cardíaca é sombrio , na medida em que somente cerca de metade dos doentes estão vivos cinco anos após o diagnóstico . A insuficiência cardíaca é responsável por 2 a 3 vezes mais mortes do que o cancro da mama e o cancro do cólon . Felizmente , o prognóstico tem melhorado muito nos últimos anos graças aos progressos no tratamento farmacológico e ao desenvolvimento de novos dispositivos médicos .
A morte súbita no desporto é um problema que a todos aflige . Algum dia será possível preveni-la , especialmente a de causa cardíaca ?
A morte súbita no desporto é rara , mas é um evento devastador porque as vítimas são geralmente jovens e aparentemente saudáveis . Um grande número destas mortes ocorre em indivíduos portadores de doença cardiovascular não diagnosticada . Daí o interesse na identificação prévia dos indivíduos de alto risco , de forma a serem sujeitos a restrições na atividade física para lhes reduzam o risco e também a serem adequadamente tratados . Por outro lado , as instalações desportivas devem dispor de desfibrilhadores e de pessoal treinado em suporte básico de vida . Deste modo será possível reduzir significativamente a morte súbita no Desporto .
Na área cardiológica , qual deve ser a estrutura / conteúdo do exame médico de pré-participação desportiva ?
O exame médico pré-participação deve compreender a história pessoal e familiar completa e o exame físico efetuado por médico com treino em medicina desportiva . Sou também de opinião que todos os candidatos devam realizar um ECG . Casos selecionados deverão fazer um ecocardiograma e prova de esforço , em caso de necessidade .
Que outros planos ​tem ​a FPC ​para a​​ melhoria da prevenção cardiovascular ?
Na FPC temos procurado identificar os maiores problemas de saúde cardiovascular em Portugal e dar o nosso contributo para uma maior sensibilização dos portugueses para a sua prevenção , quer a nível da população em geral , quer das autoridades . As doenças cardiovasculares são doenças civilizacionais , o mesmo é dizer , doenças do estilo de vida . Nesse sentido as nossas prioridades têm recaído sobre a alimentação ( tivemos um papel primordial na aprovação da dieta mediterrânica como património mundial da humanidade e na luta contra o excesso de sal ) e a atividade física , que condicionam as epidemias de obesidade e diabetes que grassam no nosso País .
2 Julho 2017 www . revdesportiva . pt
Rev. Medicina Desportiva informa, 2017, 8 (4), p. 2 Prof. Doutor Manuel Carrageta Cardiologista e Presidente da Fundação Portuguesa de Cardiologia Quais foram os objetivos da Fundação Portuguesa de Cardiologia (FPC) com o simpósio “O coração no desporto” realizado em maio? Tivemos em atenção que os portugueses são o povo da União Europeia que surge em todos os inquéritos como aquele que menos atividade física pratica, talvez porque, enquanto povo, ainda não assu- mimos a forte relação que existe entre o exercício, a saúde e o bem-estar. Esta ideia foi reforçada pelos estudos que a Fundação tem realizado, que mostram que, apesar de todas as campanhas de sensibilização para a importância da ati- vidade física, dois terços dos Portugueses são sedentários. Por outro lado, metade dos portugueses que são sedentários, não estão motivados para o deixar de ser, pois acham que não tem interesse praticar atividade física. Que valor atribui a FPC ​à atividade física e ao desporto no contexto da prevenção cardiovascular? A atividade física regular reduz o risco de ataques cardíacos em mais de 30%, um benefício que pode ser comparável, por exemplo, ao obtido com a terapêutica redutora do colesterol. Por outro lado, a inatividade física confere um risco semelhante ao da obesidade e do taba- gismo. Julga-se que esta redução do risco se deve a vários mecanismos dos quais refiro, em seguida, os mais importantes: a) A atividade física regular é uma das melhores maneiras de reduzir a tensão arterial. Em média, a prática regular de atividade física aeróbia reduz a tensão arterial sistólica em cerca de 10 mmHg e a diastólica em 5 mmHg, o que é suficiente para normalizar os valores da tensão arterial em grande número de indivíduos com tensões ligeira- mente elevadas. b) A atividade física é uma das medidas que aumenta o colesterol das HDL. É conhecida a relação inversa entre os níveis do colesterol das HDL e o risco de doença cardiovascular, ou seja, quanto maiores forem os níveis das HDL menor será o risco de ataque cardíaco. 2 Julho 2017 www.revdesportiva.pt c) A atividade física aumenta a sensibili- dade dos tecidos periféricos à insulina, o que melhora todo o metabolismo da glicose que está profundamente perturbado na diabetes. d) Está hoje claramente provado que a atividade física retarda o processo de envelhecimento, sendo atualmente uma das poucas medidas eficazes, a par com uma alimentação moderada (restrição calórica), a propiciar um aumento não só da longevidade como da qualidade de vida. Está estimado que, em média, a uma hora de ativi- dade f ͥɕմ)Յ́Ʌ́յѼɅ)٥) ɽՔɕͽٕȁɽ)ɽɅ́ɕчɓՔ)ɝ͕)ɕчɓѥդՄ)́م)фɕٕɑم͍ձȸ)єɽɅɕчՔդ)ɕͥ٥̈́ɥѥ)٥ɽ́ѽɕ́ɥ͍)ͥ͝ɕѕɇͽ)́ѕ̸Qѥٽ́ѥ)ȁɕɇչє)Քͽɕԁմєɑم͍ձȰ)ɅȁՄՅ٥)ɕȁɥ͍ɕ)Օ́ɓ̰եє)ɕɄUєՔͽɕ٥لմ)єɑԁյɝ)ɓ́хȁմɽɅ)ɕчɓեɔѽ)ͅՓٕ̰ɕ٥ٕȁ)ٕɑ́ͅՓٕ)єɄ٥Aȁͼɕͅ)ѽ́́́ɕȁ)ѽ́́ѕٕ́́ѥ)մɽɅɕчɓ)<ɕчɓ)єѕɅєɥɥ)ե́ɑ́͝ɕхȁ)ѕ́՝Օ͕͕́ٔȁɕ)́ѽɥ͇́鑔)յɥɥ)<ՔٽԁA )ɕѕє́Á)MلɕɄɍɥMA )ͽ!)յɄɥѼ)Ѽչɕԁՙ)ɓՔյѽՔ)фɍ՝Օ͕́)ɅյѼ$)ɕٕѕɹѼф)ȁ́ս́́ԁ̸)<ɽѥՙɓ+ͽɥՔͽє)ɍх́ѕ́٥ٽ)́́ѥՙ)ɓɕٕȀȁ)ٕ́́ѕ́Քɼ)ɼͱ鵕є)ɽѥѕɅեѼ+ѥ́́ɇ́́ɽɕͽ́)ɅхѼɵ͕͝ٽ)٥Ѽٽ́ͥѥٽ̸́)є鉥фѼմ)ɽՔѽ́մ)͕ٕɕٕє)̈́ɓ)є鉥фѼɅɄ̃)մٕѼمхȁՔ́ѥ)Ʌєٕ́ɕѕє)ͅՓ̸ٕUɅ鵕ɼх)ѕ́ɔս́хɕ)ɑم͍ձȁ̴)ѥѕɕ͔ѥ)٥́ս́Ѽɥ͍)ɵ͕ɕթѽ́ɕɧՕ́)ѥ٥ͥɄ́ɕ酴)ɥ͍х͕ɕՅє)Ʌх̸Aȁɼ́хՕ)ѥمٕ́ȁ͙ɥ)ɕ́ͽɕє)ͥ٥є͕ٕ)ɕȁͥѥمєє鉥ф)Ѽ)9ɕɑ͝Յ͕ٔȁ)Ʉї鑼ᅵ)ѥѥل)<ᅵѥٔ)ɕȁɥͽ)фᅵͥՅ)ɕȴ)ѥلMԁхՔѽ)́ѽ́مɕȁմ ) ͽ͕ٕ́́ȁմ)ɑɅɽل͙)ͼͥ)EՔɽ́̃-ѕ-A -Ʉ,,)ɥɕٕɑم͍ձ)9A ѕ́ɽɅѥȁ)ɕ́ɽ͇́鑔ɑم̴)ձȁA՝ȁͼ)ɥѼɄյȁ͕ͥ)́՝Օ͕́ɄՄɕٕ)ՕȁٕձɅՕ)́ѽɥ̸́́ɑم̴)ձɕ́́٥配̰)͵Ȱ́ѥ٥)9͔͕ѥ́́ͅɥɥ́)ɕͽɔчѥٕ́մ)ɥɑɽهф)ѕɥ͹ո)յфɄ)ፕͼͅѥ٥ͥՔ)́́ͥ)ѕ́ՔɅͅͼA̸