Revista de Medicina Desportiva Informa Janeiro 2018 - Page 10

Tema

Rev . Medicina Desportiva informa , 2018 , 9 ( 1 ), pp . 8 – 11

Síndrome da Anca de Ressalto

D . Diogo Moura 1 , Dr . Oliver Marín-Peña 2 , Dr . Luís Maximino 3 , Prof . Doutor António Bernardes 4 , Prof . Doutor Fernando Fonseca 5
1
Médico Interno de Ortopedia e Traumatologia do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra ( CHUC ), Assistente Convidado de Anatomia da Faculdade de Medicina de Coimbra ( FMUC ); 2 Assistente Hospitalar de Ortopedia do Hospital Universitário Infanta Leonor , Madrid ; 3 Assistente Hospitalar de Ortopedia – Setor da Anca do CHUC ; 4 Regente de Anatomia da FMUC ; 5 Diretor de Serviço de Ortopedia do CHUC .
RESUMO / ABSTRACT
A síndrome da anca de ressalto é uma entidade cuja sintomatologia predominante é a sensação de ressalto junto à articulação da anca provocado por um conflito dinâmico entre músculos ou tendões e proeminências ósseas . A etiologia dos diferentes tipos de ressalto , e consequentemente os alvos terapêuticos , têm sido alvo de debate e controvérsia ao longo dos anos . A história clínica e exame físico adequados são frequentemente suficientes para o diagnóstico desta patologia . O tratamento é tipicamente conservador , no entanto quando este não resulta está indicado tratamento cirúrgico , que consiste no alongamento dos músculos ou tendões envolvidos no ressalto . Os autores apresentam neste artigo uma revisão da literatura científica mais atual acerca da anatomia funcional , fisiopatologia , clínica , diagnóstico e tratamento da anca de ressalto extra-articular .
Snapping hip syndrome is a condition in which the predominant symptom is the snapping feeling around the hip joint caused by a dynamic impingement between muscles or tendons and bone prominences . The etiology of the snapping hip types and consequently the therapeutic targets have been subjects of discussion and controversy along the years . A careful clinical history and physical examination is frequently enough for this disease diagnosis . Treatment is typically conservative , however when it is not successful surgical treatment is indicated , consisting on the snapping muscle or tendons lengthening . The authors review in this paper the current scientific literature about functional anatomy , physiopathology , symptoms , diagnosis and treatment of snapping hip .
PALAVRAS-CHAVE / KEYWORDS
Anca de ressalto , extra-articular , banda iliotibial , psoasilíaco Snapping hip , extra-articular , iliotibial band , iliopsoas
Definição
Nos últimos 20 anos o conflito femoroacetabular foi muito investigado , estando hoje em dia estabelecido como uma causa importante de dor na anca dos jovens adultos . Contudo , existem outros conflitos mecânicos em torno da anca que podem provocar dor nesta faixa etária , nomeadamente os que se manifestam através de sensação de um ressalto , a denomidada anca de ressalto ( snapping hip ou coxa saltans ). Apesar de estarem descritos desde o início do século passado , a etiologia dos diferentes tipos de ressalto , e consequentemente os alvos terapêuticos , têm sido alvo de debate e controvérsia ao longo dos anos . 1-4 A anca de ressalto propriamente dita tem origem extra- -articular , sendo o ressalto provocado por um conflito dinâmico entre músculos ou tendões e proeminências ósseas adjacentes à anca . Os ressaltos da anca dividem-se nos tipos lateral ( ressalto entre a banda iliotibial ou o grande glúteo e o grande trocânter ), no anterior ou medial ( ressalto entre o psoasilíaco e a iminência iliopectínea , espinha ilíaca ântero-inferior ou porção anterior da cabeça femoral ) e no posterior ( ressalto entre a longa porção do bicípite femoral e a tuberosidade isquiática ). 1 , 6-10
Anatomia funcional e fisiopatologia
Os ressaltos da anca ocorrem durante movimentos musculares e tendinosos fisiológicos sobre proeminências ósseas que habitualmente não provocam qualquer conflito ou ressalto . Tratam-se de situações que refletem a adaptação filogenicamente ainda precoce da nossa espécie à posição bípede , mais precisamente ao posicionamento adquirido pelas estruturas anatómicas face às ancas em hiperextensão em relação à bacia . 11 Considera-se atualmente que os ressaltos ocorrem devido a alterações anatómicas , tanto das estruturas musculotendinosas , como das proeminências ósseas envolvidas . 1 , 6-8
O tipo de anca em ressalto mais frequente é o extra-articular lateral ( Figura 1-A ). Em condições normais , com a anca em extensão a banda iliotibial ( um espessamento lateral da fáscia lata ) fica situada em posição posterior ao grande trocânter . Quando a anca passa de extensão a flexão , a banda iliotibial desliza para posição anterior em relação ao grande trocânter . Por sua vez , em rotação lateral da anca o grande trocânter fica posterior em relação à banda iliotibial , enquanto em rotação medial este fica anterior . Esta mudança dinâmica de posições em relação ao grande trocânter é normal e habitualmente não provoca sensação de ressalto . No entanto , quando a porção posterior da banda iliotibial ou o bordo anterior do músculo glúteo médio estão espessados e se inicia a flexão da anca , estas estruturas fazem um atrito excessivo contra o grande trocânter antes de passarem com um ressalto súbito para posição anterior a este . 1 , 9 , 12 O espessamento da porção posterior da banda iliotibial ou do bordo anterior do médio glúteo e a tensão excessiva da banda iliotibial poderão ser causados por treino excessivo destes músculos , em particular na corrida em planos inclinados e na dança . A presença de coxa vara , offsets femorais elevados , trocânteres proeminentes , hiperplasia da bolsa sinovial trocantérica , distância bi- -ilíaca diminuída e membro inferior contralateral mais curto aumentam a tensão da banda iliotibial contra o grande trocânter , sendo , portanto , considerados fatores anatómicos de risco para desenvolvimento de ressalto lateral . Alguns procedimentos cirúrgicos que tornem o grande trocânter mais proeminente e a banda iliotibial mais rígida e tensa podem também contribuir para o aparecimento desta patologia .
1 , 6-9 , 13-17
Por sua vez , o ressalto extra-articular anterior ou medial ( Figura 1-B ) é o segundo tipo mais frequente e ocorre habitualmente entre a transição miotendinosa do psoasilíaco e as estruturas anteriores da anca . Quando a anca está em flexão e rotação lateral , o tendão do
8 janeiro 2018 www . revdesportiva . pt
Rev. Medicina Desportiva informa, 2018, 9 (1), pp. 8–11 Síndrome da Anca de Ressalto D. Diogo Moura 1 , Dr. Oliver Marín-Peña 2 , Dr. Luís Maximino 3 , Prof. Doutor António Bernardes 4 , Prof. Doutor Fernando Fonseca 5 1 Médico Interno de Ortopedia e Traumatologia do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra (CHUC), Assistente Convidado de Anatomia da Faculdade de Medicina de Coimbra (FMUC); 2 Assistente Hospitalar de Ortopedia do Hospital Universitário Infanta Leonor, Madrid; 3 Assistente Hospitalar de Ortopedia – Setor da Anca do CHUC; 4 Regente de Anatomia da FMUC; 5 Diretor de Serviço de Ortopedia do CHUC. RESUMO / ABSTRACT A síndrome da anca de ressalto é uma entidade cuja sintomatologia predominante é a sensação de ressalto junto à articulação da anca provocado por um conflito dinâmico entre músculos ou tendões e proeminências ósseas. A etiologia dos diferentes tipos de ressalto, e consequentemente os alvos terapêuticos, têm sido alvo de debate e controvér- sia ao longo dos anos. A história clínica e exame físico adequados são frequentemente suficientes para o diagnóstico desta patologia. O tratamento é tipicamente conservador, no entanto quando este :6&W7VFW7L:F6FG&FVF6,;&v6VR667FRvVFF2;67V2RFVL;VW2VffF2&W76F2WF&W2&W6VFЦW7FR'FvV&Wf<:6FƗFW&GW&6VL:f62GV6W&6FF֖gV6f6Fv6:6Fv;77F6RG&FVFF6FR&W76FWG&'F7V"6r7G&R26FFv6FR&VF֖B7F2FR6rfVVƖp&VBFRB6W6VB'G֖2vVVB&WGvVVW66W2"FVF2B&P&֖V6W2FRWFwbFR6rGW2B66WVVFǒFRFW&WWF2F&vWG2fP&VV7V&V7G2bF67W76B6G&fW'7rFRV'26&VgV6Ɩ67F'B66W֖F2g&WVVFǒVVvf"F2F6V6RFv62G&VFVB2G6ǒ66W'fFfRvWfW"vVB2B7V66W76gV7W&v6G&VFVB2F6FVB667FrFR6rW66P"FVF2VwFVrFRWF'2&WfWrF2W"FR7W'&VB66VFf2ƗFW&GW&R&WBgV2ЧFFג6Fw7F2Fv62BG&VFVBb6re$24dRUt$E06FR&W76FWG&'F7V"&FƖF&66:66rWG&'F7V"ƖF&&BƖ60FVf:|:62 ;F2#26fƗFfVЧ&6WF'V"fVFfW7FvFW7FFRVFW7F&VV6F6V6W6'FFRFRF 6F2fV2GVF26GVFW7FVWG&26fƗF2V<:&60VF&F6VRFV&Чf6"F"W7FfWL:&VЦFVFR2VR6RfW7FЦG&l:2FR6V6:|:6FRV&W76FFV֖FF6FR&W76F6rR66F2W6 FRW7F&VFW67&F2FW6FR:6F<:7V76FWFvF2FfRЧ&VFW2F2FR&W76FR66WVVЧFVVFR2f2FW& :WF62L:Ч6FfFRFV&FRR6G&l:'6vF22B6FR&W76F&&VFRFFFV&vVWG&Т'F7V"6VF&W76F&f6F"V6fƗFF:&֖6VG&R;2Ц7V2RFVL;VW2R&V֖:60;776V2F6VFW2 :62&W76F0F6FfFV6R2F2FW&&W76FVG&R&FƖF&RV&#wwr&WfFW7'Ff@w&FRv;FVRw&FRG&<:&FW"FW&"RVF&W76FVG&P66:6R֖:6ƖV7L:ЦVW7:6 :&FW&֖fW&"P,:|:6FW&"F6&\:vfV&R7FW&"&W76FVG&Rv,:|:6F&<:FRfV&RGV&W&Ч6FFR7V:F6bF֖gV6Pf6Fv2&W76F2F66'&VЦGW&FRfVF2W67V&W2PFVF62f6;6v626'&R&V֒Ц:62 ;776V2VR&GVVFP:6&f6VVW"6fƗFP&W76FG&F6RFR6GV:|;VW2VP&VfWFVFF:|:6fvV6VFPF&V66RF76W7 :6R :6:|:6,:VFR2&V66VFP66VFGV&FV0W7G'WGW&2L;6֖62f6R :260VW&WFV<:6V&V:|:6 :&666FW&6RGVVFPVR2&W76F26'&VFWfFFW&:|;VW2L;6֖62FFF0W7G'WGW&2W67VFVF626F2&V֖:62 ;776V0VffF2bӀFFR6V&W76F0g&WVVFR :WG&'F7V"FW&fwW&V6F:|;VW2&266VWFV<:6&FƖF&VW7W76VFFW&Fl:66Ff66GVFV6Ь:|:67FW&"w&FRG&<:&FW"VF676FRWFV<:6fW:6&FƖF&FW6Ɨ&6:|:6FW&"V&V:|:6w&FRG&<:&FW""7VfWVЧ&F:|:6FW&F6w&FPG&<:&FW"f67FW&"V&V:|:6 :&FƖF&VVFV&FЬ:|:6VFW7FRf6FW&"W7FVF:vF:&֖6FR6:|;VW2VЧ&V:|:6w&FRG&<:&FW" :&R&GVVFR:6&f66V6Ь:|:6FR&W76FVFFVF,:|:67FW&"F&FƖFЦ&R&&FFW&"F;67Vv;FV:FW7L:6W7W76F2R6P6fW:6F6W7F2W7G'RЧGW&2fVVG&FW6W76f6G&w&FRG&<:&FW"FW2FP76&V6V&W76F<;&F&6:|:6FW&"W7FRÒ W7W76VFF,:|:67FRЧ&"F&FƖF&RF&&FFW&"F:Fv;FVRFV<:6W6W76fF&FƖF&FW,:66W"6W6F2"G&VW6W76fFW7FW2;67V2V'F7V"6'&FV26ƖF2RF:v&W6V:vFR6f&fg6WG2fV&2VWfF2G&<:&FW&W0&V֖VFW2W'6F&66fG&6L:&6F7L:&6&Т֖:6F֖\:FRV'&fW& 6G&FW&27W'FVVFЦFV<:6F&FƖF&6G&w&FRG&<:&FW"6VF'FF66FW&F2fF&W2L;6֖62FP&66&FW6VffVFFR&W2Ч6FFW&wV2&6VFVF06,;&v62VRF&Vw&FRG&Ц<:&FW"2&V֖VFRR&FƖF&2,:vFRFV6FVЧF,:6G&'V"&&V6ЦVFFW7FFvbӒ2p"7VfW&W76FWG&'FЦ7V"FW&"RVFfwW&":6VwVFF2g&WVVFRP6'&R&GVVFRVG&RG&6:|:6֖FVF6F66Ц:6R2W7G'WGW&2FW&&W2F6VF6W7L:VfW:6R&F:|:6FW&FVL:6F