Crônica por Lucas Ximenes
Design por Miwa Kashiwagi
Milla, preciso compartilhar algumas angústias com você.
É com muito pesar que informo o fim da nossa paixão. Algo bem burocrático. Quase uma lei dentro
dos relacionamentos. Buquê de flores, fotos de casal juntinhos, declarações enormes de amor.
It’s gone.
Confesso que percebi isso há uns dias. Estava chovendo talvez, texto bem grande na tela do
computador, postagem pra ontem. Vida corrida, você sabe. Uma pessoa apaixonada, não sei, mas
eu creio que alguém nessa situação responderia a mensagem no mesmo momento em que recebeu.
Dane-se. O impulso sempre fala mais alto que a razão. O caso é que eu não respondi. Vi sua men-
sagem, li muito bem, mas continuei o protocolo. Texto grande, trabalho para ontem, correria.
Um dia já fui assim, apaixonado. Lembra-se de quando apareci na porta de sua casa depois de
ligar 21x e não ser atendido? A paixão desespera. Por paixão o homem atravessa a cidade atrás
de sua idolatria. Vai até a lua pra chegar onde quer. Por paixão; não por amor.
Por paixão estava lá, plantado na rua Benedito de Edgar Lopes, em frente a um supermercado,
esperando respostas. Naquele dia, disse pela primeira vez: eu te amo. Agora sei que aquelas
foram as palavras erradas. Na verdade, queria dizer que estava apaixonado por você.
Um dia desses eu tava sentado em um bar - você estava comigo inclusive - e conversamos com um
amigo nosso sobre paixão.
Ele aparentava estar apaixonado. Os sintomas? colher de sopa para cavar a própria cova. Que
sofrimento! Isso dói. Sensação de bicho indomável. Tigre que quer sair da gaiola. Animal que
não foi feito pra zoológico. Sentimento compatível com um pé de manga no sol de dezembro. Que
coisa linda! Mas pelo ciclo natural, sempre chega o inverno. Devastação.
Aos poucos descobri que em mim, ela foi embora. Escafedeu-se (como diria minha querida avó).
Mas a vontade de ter você por perto não. Estranho né? Aos pouquinhos fui percebendo que tudo
bem não ter aquele desejo incessante pelo outro. Na verdade, o outro nem é meu mesmo. Me
acostumei à rotina - coisa árdua - e à ausência. Talvez não sinta sua falta todo dia o tempo
todo, porque te sinto a todo instante. Coração não despedaça mais. Acalenta-se. Por mais que
busque respostas para tudo, creio que pra está específica, jamais terei. O que toma conta do
vazio deixado pela paixão?
Provavelmente nada. A paixão impõe barreiras, ela cega, distribui amarras e te faz saltar
incessantemente atrás do desejo primordial. A cada dia que passa tenho convicção de que estou
imergindo nesse vazio. O vazio deixado pelos devaneios de estar apaixonado. É Milla, dentro
de mim não tem nada. E sabe mais? Acredito que encontrei o verdadeiro amor.
Sinto-te Milla, a todo momento. Com todas as âncoras postas de lado, com todos os pregos ca-
ídos no chão. Vazio. Permito-me sentir. Coloco para fora meu eu e choro. Como sempre, derramo
a alma. Mas agora, sem muro à frente. Hoje sei que em ti não me encontro. Mas te encontro em
mim. E por sentir o vazio de amar, acredito fielmente que amo, mesmo sem saber o que isso, de
fato, significa. Por fim, acho que Clarice estava certa: tem tanta coisa que a gente não sabe
que sabe, e nem por isso deixamos de viver; e nem por isso deixamos de sentir...
Se o vazio que sinto é amor, Milla, então te amo profundamente. Bem mais que o pé de manga no
verão. Amo-te ao longo do ciclo inteiro - principalmente durante as mais belas devastações.