RELATÓRIO FINAL DA SUBCOMISSÃO DA VERDADE NA DEMOCRACIA AS EXECUÇÕES SUMÁRIAS NO RJ | Page 105

Em março de 2013, quando a Maré se preparava para receber uma UPP que nunca se concretizou, a ocupação vinha sendo discutida entre moradores e organizações locais, e, dentre elas, a Redes da Maré. No âmago do debate, a sensação-limite de opressão causada pelo comportamento da polícia nas favelas pacificadas, fruto de uma política de segurança verticalizada, alheia à vontade, opinião e mesmo à segurança dos moradores. A situação das UPPs já transparecia como fora de controle, de tal forma que já no final de 2012 foi criado um canal de denúncias específico para as áreas pacificadas chamado Disque-UPP. A diretora da organização, Eliana Silva, sintetiza em poucas palavras a raiz dos problemas das UPPs, demarcando as fronteiras que separavam o projeto de pacificação de um modelo de policiamento comunitário: Nós não queremos só a polícia. Queremos discutir segurança pública. A Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) tem que ser discutida com quem mora na favela e virar realmente uma política de segurança pública. Não somos contra a polícia. Mas não é ela que vai solucionar nossos problemas. Queremos o Estado presente em todos os aspectos, principalmente na educação e na saúde, buscando uma melhor qualidade de vida para os moradores resgatarem a autoestima e acabarem com os traumas [O Globo, 12/03/13]. Em junho, no mesmo mês em que o BOPE chacinava nove pessoas na Maré por ocasião de uma manifestação organizada pelos moradores no dia vinte e sete, os policiais militares da UPP da Rocinha sequestraram, torturaram, assassinaram e ocultaram o cadáver do pedreiro Amarildo Dias de Souza, morador da favela, que voltava de uma pescaria. O caso Amarildo ganhou repercussão internacional e só foi admitido, e posteriormente solucionado, devido à enorme pressão da opinião pública, que ressoou o desaparecimento de Amarildo durante as manifestações de junho de 2013. O pedreiro tinha sido levado para averiguação na sede da Unidade de Polícia Pacificadora, onde entrou e depois nunca mais foi visto. A polícia alegou que o pedreiro tinha sido liberado. As câmeras posicionadas diante da UPP não estavam funcionando no momento de sua detenção. Os aparelhos GPS das viaturas também estavam desligados. Uma testemunha, moradora da Rocinha, depôs acusando o traficante da comunidade de implicação no desaparecimento de Amarildo. Porém, uma Auditoria Militar designada para investigar o caso, revelou que a moradora em questão havia mentido. O ex-comandante da UPP da Rocinha, major Edson Santos, havia coagido a testemunha a incriminar o traficante Thiago da Silva Neris como autor do assassinato de Amarildo.