em frente a este, o edifício da Promotoria, são
da colônia mas que, na verdade, é fruto de uma
bons exemplos. Há também outros prédios que
intervenção recente.
desabaram ou pegaram fogo e que foram re-
No entanto, para o bem do turismo e da be-
construídos ao estilo colonial. O antigo Fórum
leza que impera na famosa Ouro Preto – que os
e o Hotel do Pilão, ambos na Praça Tiradentes,
sites oficiais bem resumem como “o maior con-
foram totalmente reedificados ao estilo colo-
junto barroco do mundo” – tais prescrições não
nial, após incêndio em que deles quase nada
são seguidas com tanto afinco. O que importa
sobrou. Outro exemplo é a parte dos fundos da
para todos nós realmente é conseguir “voltar“
igreja do Pilar que, após o seu desabamento em
a um passado em que se possa desfrutar de
1961, foi reconstruída exatamente como era,
uma ambiência idealizada, com comidas típicas
para que o turista não percebesse a diferença.
criadas pelos escravos e pelos tropeiros com in-
De modo semelhante, inúmeras casas no cen-
gredientes simples e baratos, a famosa comida
tro da cidade foram erguidas nos últimos anos,
mineira. Tudo isso é parte de Ouro Preto, parte
mas, por imposição do IPHAN, assumem uma
do Brasil. E mesmo que não seja completa e
aparência “coloniosa”. Mesmo a quase bicen-
verdadeiramente colonial, parece ser, e isso é o
tenária Escola de Farmácia teve, ao longo dos
que importa.
anos, diversos acréscimos que a fizeram cada
vez mais parecer uma construção antiga.
A Carta de Veneza – que, desde 1964, orienta
acerca da preservação do patrimônio – proíbe
que tais intervenções sejam realizadas desse
modo, pois criariam “falsos históricos”, ou seja,
uma arquitetura que parece edificada na época
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Revista CECBARIO
MARCELO DA ROCHA SILVEIRA é atualmente professor
da Escola de Belas Artes da UFRJ, foi professor do curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal
de Ouro Preto entre 2008 e 2013. É mestre em Filosofia e
Doutor em Teoria, História e Crítica da Arquitetura ambos
pela UFRJ. Coordenou em Ouro Preto todos os Seminários
Internacionais de Urbanismo e Patrimônio entre os anos de
2009 e 2011. É autor de vários livros e artigos publicados no
Brasil e na Europa.