O racismo não precisa de racistas
Jorge Majfud
N
as minhas aulas, sempre procuro deixar clara a diferença
entre opiniões e fatos. É uma regra fundamental, um exer-
cício intelectual muito simples com que devemos nos com-
prometer na era pós-iluminista. Comecei a ficar obcecado com
questões tão óbvias quando descobri, em 2005, que alguns alunos
estavam argumentando que algo “é verdade porque acredito” – e
eles não estavam brincando.
Desde então, suspeito que tal condicionamento intelectual, tal
fusão de física com metafísica (esclarecida por Averróis há quase
mil anos) – que, ano após ano, se torna cada vez mais dominante (fé
como critério supremo, independentemente de todas as evidências
no sentido contrário) – tem suas origens nas majestosas igrejas do
sul dos Estados Unidos.
Mas o pensamento crítico envolve muito mais do que apenas
distinguir fatos de opiniões. Tentar definir o que é um fato seria
suficiente. A própria ideia de objetividade se origina paradoxal-
mente de uma única perspectiva, de uma lente. E qualquer um
sabe que, com a lente de uma câmera fotográfica ou de vídeo, ape-
nas uma parte da realidade é capturada, o que muitas vezes é sub-
jetivo ou usado para distorcer a realidade no suposto interesse da
objetividade.
Por alguma razão, os estudantes tendem a se interessar mais por
opiniões do que por fatos. Talvez por causa da ideia supersticiosa
O racismo não precisa de racistas
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