Pedras e Demônios pd53 | Page 65

O racismo não precisa de racistas Jorge Majfud N as minhas aulas, sempre procuro deixar clara a diferença entre opiniões e fatos. É uma regra fundamental, um exer- cício intelectual muito simples com que devemos nos com- prometer na era pós-iluminista. Comecei a ficar obcecado com questões tão óbvias quando descobri, em 2005, que alguns alunos estavam argumentando que algo “é verdade porque acredito” – e eles não estavam brincando. Desde então, suspeito que tal condicionamento intelectual, tal fusão de física com metafísica (esclarecida por Averróis há quase mil anos) – que, ano após ano, se torna cada vez mais dominante (fé como critério supremo, independentemente de todas as evidências no sentido contrário) – tem suas origens nas majestosas igrejas do sul dos Estados Unidos. Mas o pensamento crítico envolve muito mais do que apenas distinguir fatos de opiniões. Tentar definir o que é um fato seria suficiente. A própria ideia de objetividade se origina paradoxal- mente de uma única perspectiva, de uma lente. E qualquer um sabe que, com a lente de uma câmera fotográfica ou de vídeo, ape- nas uma parte da realidade é capturada, o que muitas vezes é sub- jetivo ou usado para distorcer a realidade no suposto interesse da objetividade. Por alguma razão, os estudantes tendem a se interessar mais por opiniões do que por fatos. Talvez por causa da ideia supersticiosa O racismo não precisa de racistas 63