Pedras e Demônios pd53 | Page 53

racistas, populistas, nacionalistas e antiglobalistas – em consonân- cia propalou-se uma atroz persecução a socialistas e partidos de esquerda em geral, além de movimentos identitários, de defesa de direitos civis e/ou humanos; a ira antipetista propagou-se como uma centelha e atingiu a esquerda indistintamente. Este conjunto de fatos e fatores teria gerado uma situação de mal-estar sociopolítico vultoso, um verdadeiro estado de anomia e seria mesmo responsável pelo desencadeamento, entre 2013/15, de um agressivo e inusitado movimento antissistema, que conse- guiu mobilizar grandes contingentes de manifestantes nas ruas e nas redes sociais. Com palavras de ordem “contra tudo o que está aí” e com pro- fissões de fé cruzadistas – em resguardo da pátria e da ordem, da família e dos “bons costumes”, de Deus e da civilização cristã –, foram aguçados sentimentos elementares e ordinários que esta- riam latentes e afloraram de maneira impetuosa. Resvalou-se mesmo, em certas ocasiões, para o irracionalismo e a histeria cole- tiva, sendo a ação política convertida em vendeta; os incautos ou desavisados tiveram a impressão de que demônios dormentes há décadas haviam sido despertados. Nesse clima e/ou conjuntura é que teriam sido criadas as con- dições para a emergência da candidatura Bolsonaro. Apresentado como outsider, antipolítico, salvador da pátria, com uma retórica insolente e beligerante, preconceituosa e regressista, antisecula- rista e anticosmopolita, conquistou ampla massa de adeptos dos mais variados estratos sociais. Explorando ardilosamente a mídia eletrônica, reuniu uma legião de tuiteiros, youtubers, blogueiros etc. – orientados por ideólogos do submundo da internet – numa incomensurável operação de propa- ganda e proselitismo político-ideológico. As eleições, decerto, reverberaram também uma situação latente e potencializaram traços incríveis e concepções de mundo autori- tárias que emergem em momentos críticos e, que, ao contrário de serem meras anomalias, são sim elementos fundantes, constituti- vos e intrínsecos da cultura e da práxis política no país. Se as interpretações ou constatações antes expostas forem verossímeis, elas sinalizam que podemos ter que vivenciar, nos pró- ximos anos ao menos, tempos infaustos para os valores e procedi- mentos democráticos e para o exercício da cidadania. Adversidades da democracia 51