racistas, populistas, nacionalistas e antiglobalistas – em consonân-
cia propalou-se uma atroz persecução a socialistas e partidos de
esquerda em geral, além de movimentos identitários, de defesa de
direitos civis e/ou humanos; a ira antipetista propagou-se como
uma centelha e atingiu a esquerda indistintamente.
Este conjunto de fatos e fatores teria gerado uma situação de
mal-estar sociopolítico vultoso, um verdadeiro estado de anomia e
seria mesmo responsável pelo desencadeamento, entre 2013/15,
de um agressivo e inusitado movimento antissistema, que conse-
guiu mobilizar grandes contingentes de manifestantes nas ruas e
nas redes sociais.
Com palavras de ordem “contra tudo o que está aí” e com pro-
fissões de fé cruzadistas – em resguardo da pátria e da ordem, da
família e dos “bons costumes”, de Deus e da civilização cristã –,
foram aguçados sentimentos elementares e ordinários que esta-
riam latentes e afloraram de maneira impetuosa. Resvalou-se
mesmo, em certas ocasiões, para o irracionalismo e a histeria cole-
tiva, sendo a ação política convertida em vendeta; os incautos ou
desavisados tiveram a impressão de que demônios dormentes há
décadas haviam sido despertados.
Nesse clima e/ou conjuntura é que teriam sido criadas as con-
dições para a emergência da candidatura Bolsonaro. Apresentado
como outsider, antipolítico, salvador da pátria, com uma retórica
insolente e beligerante, preconceituosa e regressista, antisecula-
rista e anticosmopolita, conquistou ampla massa de adeptos dos
mais variados estratos sociais.
Explorando ardilosamente a mídia eletrônica, reuniu uma legião
de tuiteiros, youtubers, blogueiros etc. – orientados por ideólogos do
submundo da internet – numa incomensurável operação de propa-
ganda e proselitismo político-ideológico.
As eleições, decerto, reverberaram também uma situação latente
e potencializaram traços incríveis e concepções de mundo autori-
tárias que emergem em momentos críticos e, que, ao contrário de
serem meras anomalias, são sim elementos fundantes, constituti-
vos e intrínsecos da cultura e da práxis política no país.
Se as interpretações ou constatações antes expostas forem
verossímeis, elas sinalizam que podemos ter que vivenciar, nos pró-
ximos anos ao menos, tempos infaustos para os valores e procedi-
mentos democráticos e para o exercício da cidadania.
Adversidades da democracia
51