Pedras e Demônios pd53 | Page 51

Adversidades da democracia José Antonio Segatto U m importante intelectual alemão, Karl Marx, em 1852, no livro 18 de Brumário, numa perspicaz análise do processo político francês dos anos 1848-51, revela como foram cria- das as “circunstâncias e condições que possibilitaram a um per- sonagem medíocre e grotesco [Luís Bonaparte] desempenhar um papel de herói”. Guardadas as singularidades dos acontecimentos na França da época, posteriormente, nos séculos 20/21, fenômenos com alguma similitude com aqueles sucederam-se em outros lugares e situa- ções particulares, até mesmo em tempos recentes. Podemos citar como exemplos, circunscrevendo-nos apenas ao continente ame- ricano e à contemporaneidade, as eleições presidenciais que ele- geram o agrônomo Alberto Fujimori (Peru, 1990), o coronel Hugo Chavez (Venezuela, 1998), o empresário Donald Trump (Estados Unidos, 2016) e o capitão Jair Bolsonaro (Brasil, 2018). O caso do Brasil, o mais recente, é deveras ilustrativo desses fatos. Político obscuro e sem qualidades, que durante quase três décadas engrossou as fileiras do baixo clero no Congresso Nacio- nal, Bolsonaro fez carreira de deputado federal por partidos fisioló- gicos e clientelistas ou de aluguel. Representante do corporativismo militar e do nacional-estatismo, arauto do regime ditatorial e apo- logeta de seus métodos despóticos e cruéis – o autoritarismo e a prepotência, a tortura e o terror –, manteve sempre a coerência de Adversidades da democracia 49