Paradidático - O Outro em Mim Paradidático - O Outro em Mim | Page 58
Lorenzo o encarou aflito, os olhos do asteca demonstravam puro
desespero e Lorenzo sabia que o seus deveriam estar da mesma maneira.
Aquele garoto mudou sua percepção da vida e do mundo, o espanhol
chegou nessa terra de tantas belezas esperando encontrar seres
totalmente primitivos e tolos. Ameyal demonstrou como estava errado.
Era um jovem muito inteligente, Lorenzo achava que era até mais que ele
próprio, um cozinheiro que com certeza seria apreciado por toda a
Europa. Ele via o mundo de uma maneira só dele, entendia sobre a
natureza e a vida como espanhol nenhum pensava. Ele lembrou de
Yolotzin, e imaginou se seu filho seria tão doce quanto aquele garoto.
Os dois estavam ali, parados em meio a batalha, olhando um para a
alma do outro, e naquele momento eles se reconheceram. Não havia
mais diferenças de continentes, de costumes, de língua ou religião. Não
havia cor de pele ou roupas que os diferenciavam. Eles viram seu próprio
reflexo um no outro, e por aqueles segundos não havia mais alteridade…
Mas aí muitos tiros começaram a ser disparados, flechas caíram ao lado
deles e a fumaça das casas em chamas era soprada em sua direção. Eles
ouviram os gritos das mulheres, o choro das crianças e o som das
espadas ferindo e matando sem piedade. Ali o mundo se dividiu
novamente. Não eram um, eram dois, eram opostos, asteca e espanhol.
Não havia mais amizade, eram inimigos. Ameyal levantou seu
Macuahuitl, ele deveria proteger seu irmão. Lorenzo levantou sua
espada, ele deveria lutar e voltar para sua esposa. E com dor, sem jamais
ter desejado aquilo, os dois se enfrentaram, e por fim o sangue manchou
a terra.