O Mocho Junho 2016 | Page 37

Vamos Escrever Poesia

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Ao longe é um imponente maciço.

Pedra branca, enrugada pelo tempo

Pelas intempéries,

Fustigada por ventos, escalavrada por raízes

Procurando sustento na brancura estéril

Mas na qual bolsas de húmus trazidas pela natureza

Encontram abrigo.

De perto, as rugosidades ganham ainda mais força,

Sobrepondo-se como cicatrizes

De lutas antigas contra os elementos intemporais

Mas no seu íntimo

-Ploc!

Um som invisível

Faz movimentar massas líquidas

Criando pequenas ondas inaudivelmente sonoras,

Concêntricas, que invisivelmente

Se estendem nessas entranhas líquidas.

-Ploc!

E novamente este som pausado,

Contínuo na sua solidão invisual

Deixa a marca indelével

Embora não testemunhada

Como um coração dorido, mas não sentido.

E nestas entranhas

Houvesse um fio de luz

Tal seria a beleza circundante

Que faria arregalar os olhos de qualquer visitante

Menos atento

Às riquezas internas de tal massa calcárea.

Mas como não há luz que ali penetre,

Aquele som mantém-se

Como um metrónomo velho e descartado

De que ninguém sonha a presença.

-Ploc!

E na sequência eterna dos acontecimentos

Este som invisível

Manterá em funcionamento uma orquestra

De ondas circulares, concêntricas,

Testemunhas únicas

Da beleza surda e invisível

Abafada pela massa calcária e inerte.

CLEPSIDRA PÉTREA

JOSÉ ROMÃO