Vamos Escrever Poesia
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Ao longe é um imponente maciço.
Pedra branca, enrugada pelo tempo
Pelas intempéries,
Fustigada por ventos, escalavrada por raízes
Procurando sustento na brancura estéril
Mas na qual bolsas de húmus trazidas pela natureza
Encontram abrigo.
De perto, as rugosidades ganham ainda mais força,
Sobrepondo-se como cicatrizes
De lutas antigas contra os elementos intemporais
Mas no seu íntimo
-Ploc!
Um som invisível
Faz movimentar massas líquidas
Criando pequenas ondas inaudivelmente sonoras,
Concêntricas, que invisivelmente
Se estendem nessas entranhas líquidas.
-Ploc!
E novamente este som pausado,
Contínuo na sua solidão invisual
Deixa a marca indelével
Embora não testemunhada
Como um coração dorido, mas não sentido.
E nestas entranhas
Houvesse um fio de luz
Tal seria a beleza circundante
Que faria arregalar os olhos de qualquer visitante
Menos atento
Às riquezas internas de tal massa calcárea.
Mas como não há luz que ali penetre,
Aquele som mantém-se
Como um metrónomo velho e descartado
De que ninguém sonha a presença.
-Ploc!
E na sequência eterna dos acontecimentos
Este som invisível
Manterá em funcionamento uma orquestra
De ondas circulares, concêntricas,
Testemunhas únicas
Da beleza surda e invisível
Abafada pela massa calcária e inerte.
CLEPSIDRA PÉTREA
JOSÉ ROMÃO