O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 54
PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO
DA
L EITURA
hora de ganhar seu público. Resolvi que levaria uma existência de livros e silêncio. Da
pensão, trouxe apenas uma muda de roupa e aquele estojo contendo a pistola de meu pai,
sua única lembrança. Reparti o resto de minhas roupas e objetos pessoais entre os
pensionistas. Se fosse possível deixar para trás a pele e a memória, eu o teria feito.
Passei minha primeira noite oficial e eletrificada na casa da torre no mesmo dia em
que foi publicado o episódio inaugural de A Cidade dos Malditos. O romance era uma
intriga imaginária tecida em torno do incêndio do El Ensueño, em 1903, e de uma criatura
fantasmagórica que enfeitiçava as Ruas do Raval desde então. Antes que a tinta daquela
primeira edição secasse, já tinha começado a trabalhar no segundo episódio da série. De
acordo com meus cálculos e partindo da base de trinta dias de trabalho ininterruptos por
mês, Ignatius B. Samson devia produzir uma média de 6,66 páginas de manuscrito útil por
dia para cumprir os termos do contrato, o que era uma loucura, mas tinha a vantagem de
não me deixar muito tempo livre para que me desse conta disso.
Percebi apenas que, com o passar dos dias, tinha começado a consumir mais café e
cigarros que oxigênio. À medida que eu o envenenava, meu cérebro ia se transformando
numa máquina a vapor que nunca chegava a esfriar. Ignatius B. Samson era jovem e
agüentava bem. Trabalhava a noite inteira e caía exausto pela manhã, entregue a
estranhos sonhos, nos quais as letras da página enfiada na máquina de escrever do
escritório se desprendiam do papel e, como aranhas de tinta, arrastavam-se sobre seu
rosto, atravessando a pele e aninhando-se em suas veias até cobrir seu coração de negro
e nublar suas pupilas em poços de escuridão. Passava semanas inteiras quase sem sair
daquele casarão e esquecia até o dia da semana ou mês do ano que estava vivendo. Não
prestava atenção às dores de cabeça recorrentes que me assaltavam repentinamente,
como se um furador de metal penetrasse em meu crânio, apagando minha visão numa
explosão de luz branca. Tinha me acostumado a viver com um silvo constante nos ouvidos,
que somente o sussurro do vento ou da chuva conseguia encobrir. Por vezes, quando o
suor frio cobria meu rosto e sentia minhas mãos tremerem sobre o teclado de Underwood,
prometia a mim mesmo que iria procurar um médico no dia seguinte. Mas no dia seguinte
sempre havia outra cena ou outra história para contar.
Completava-se o primeiro ano de vida de Ignatius B. Samson, quando, para
comemorar, resolvi tirar um dia de folga e reencontrar-me com o sol, a brisa e as Ruas da
cidade que eu tinha deixado de pisar para apenas imaginar. Tomei um banho, arrumei-me
e enfiei o melhor e mais apresentável de meus ternos. Deixei as janelas do escritório e da
galeria abertas para ventilar a casa e para que aquela névoa espessa que tinha se