O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 427

PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO DA L EITURA 23 Voltei para o carro e sentei, as mãos manchadas de sangue sobre o volante. Mal podia respirar. Esperei um minuto e em seguida soltei o freio de mão. O entardecer tinha coberto o céu com um sudário vermelho sob o qual latejavam as luzes da cidade. Parti Rua abaixo, deixando para trás a silhueta da Villa Helius no alto da colina. Ao chegar à avenida Pearson parei e olhei pelo espelho retrovisor. Um carro saía de um beco escondido e situava-se a 50 metros de mim. Não tinha acendido as luzes. Victor Grandes. Continuei descendo pela avenida Pedralbes até ultrapassar o grande dragão de ferro forjado que guardava o portão principal do Parque Güell. O carro do inspetor Grandes continuava lá, a cerca de 100 metros. Ao chegar à Diagonal, virei à esquerda em direção ao centro da cidade. Só circulavam veículos, e Grandes me seguiu sem dificuldade, até que resolvi dobrar à direita na esperança de conseguir despistá-lo nas Ruas estreitas de Las Corts. Nesse ínterim, o inspetor, percebendo que sua presença não era mais um segredo, tinha ligado os faróis, encurtando distâncias. Pelo espaço de vinte minutos fomos costurando entre Ruas e bondes. Deslizei entre ônibus e carros, encontrando sempre os faróis de Grandes na retaguarda, sem tregua. De repente, a montanha de Montjüic se ergueu na minha frente. O grande palácio da Exposição Universal e os restos dos outros pavilhões tinham sido fechados apenas duas semanas antes, mas já se perfilavam na bruma do crepúsculo como ruinas de uma grande civilização esquecida. Penetrei na grande avenida que subia até a cascata de luzes fantasmagóricas e fogos-fátuos dos chafarizes da Exposição e acelerei até onde o motor agüentava. À medida que subíamos pela estrada que rodeava a montanha e serpenteava até o Estádio Olímpico, Grandes foi ganhando terreno até que pude distinguir seu rosto claramente no espelho. Por um instante, senti a tentação de pegar a estrada que ia até o castelo militar no alto da montanha, mas se havia algum lugar sem saída, era aquele. Minha única esperança era chegar à encosta da montanha que mirava o mar e desaparecer em alguma das docas do porto. Por isso, precisava ganhar uma margem de tempo. Grandes agora estava a cerca de 15 metros de mim. As grandes balaustradas de Miramar se abriam diante da cidade estendida aos nossos pés. Apertei o pedal do freio com todas as minhas forças e deixei que Grandes se estatelasse contra a Hispano-Suiza. O impacto nos arrastou juntos por quase 20 metros, levantando uma grinalda de faíscas sobre a estrada. Soltei o freio e avancei um pouco. Enquanto Grandes tentava recobrar o controle, engrenei a marcha-ré e