O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 427
PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO
DA
L EITURA
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Voltei para o carro e sentei, as mãos manchadas de sangue sobre o volante. Mal
podia respirar. Esperei um minuto e em seguida soltei o freio de mão. O entardecer tinha
coberto o céu com um sudário vermelho sob o qual latejavam as luzes da cidade. Parti Rua
abaixo, deixando para trás a silhueta da Villa Helius no alto da colina. Ao chegar à avenida
Pearson parei e olhei pelo espelho retrovisor. Um carro saía de um beco escondido e
situava-se a 50 metros de mim. Não tinha acendido as luzes. Victor Grandes.
Continuei descendo pela avenida Pedralbes até ultrapassar o grande dragão de ferro
forjado que guardava o portão principal do Parque Güell. O carro do inspetor Grandes
continuava lá, a cerca de 100 metros. Ao chegar à Diagonal, virei à esquerda em direção
ao centro da cidade. Só circulavam veículos, e Grandes me seguiu sem dificuldade, até
que resolvi dobrar à direita na esperança de conseguir despistá-lo nas Ruas estreitas de
Las Corts. Nesse ínterim, o inspetor, percebendo que sua presença não era mais um
segredo, tinha ligado os faróis, encurtando distâncias. Pelo espaço de vinte minutos fomos
costurando entre Ruas e bondes. Deslizei entre ônibus e carros, encontrando sempre os
faróis de Grandes na retaguarda, sem tregua. De repente, a montanha de Montjüic se
ergueu na minha frente. O grande palácio da Exposição Universal e os restos dos outros
pavilhões tinham sido fechados apenas duas semanas antes, mas já se perfilavam na
bruma do crepúsculo como ruinas de uma grande civilização esquecida. Penetrei na
grande avenida que subia até a cascata de luzes fantasmagóricas e fogos-fátuos dos
chafarizes da Exposição e acelerei até onde o motor agüentava. À medida que subíamos
pela estrada que rodeava a montanha e serpenteava até o Estádio Olímpico, Grandes foi
ganhando terreno até que pude distinguir seu rosto claramente no espelho. Por um
instante, senti a tentação de pegar a estrada que ia até o castelo militar no alto da
montanha, mas se havia algum lugar sem saída, era aquele. Minha única esperança era
chegar à encosta da montanha que mirava o mar e desaparecer em alguma das docas do
porto. Por isso, precisava ganhar uma margem de tempo. Grandes agora estava a cerca
de 15 metros de mim. As grandes balaustradas de Miramar se abriam diante da cidade
estendida aos nossos pés. Apertei o pedal do freio com todas as minhas forças e deixei
que Grandes se estatelasse contra a Hispano-Suiza. O impacto nos arrastou juntos por
quase 20 metros, levantando uma grinalda de faíscas sobre a estrada. Soltei o freio e
avancei um pouco. Enquanto Grandes tentava recobrar o controle, engrenei a marcha-ré e