O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 393

PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO DA L EITURA bambu e madeira. Tufos de fumaça branca serpenteavam entre os telhados daquela aldeia de miséria que crescia entre a cidade e o mar como uma infindável lixeira humana. O fedor de lixo queimado flutuava no ar. Penetramos pelas Ruas daquela cidade esquecida, passagens abertas entre estruturas feitas de tijolos roubados, barro e pedaços de madeira devolvidos pela maré. O menino conduziu-me para o interior, alheio aos olhares desconfiados das pessoas do lugar. Diaristas sem diária, ciganos expulsos de outros acampamentos similares nas encostas da montanha de Montjuïc ou diante das fossas comuns do cemitério de Can Tunis, crianças e velhos desenganados. Todos me observavam com receio. À nossa passagem, mulheres de idade indefinida esquentavam água ou comida em recipientes de latão em pequenas fogueiras diante dos barracos. Paramos na frente de uma estrutura esbranquiçada em cuja porta uma menina com cara de velha, mancando de uma perna roída pela pólio, arrastava um cubo no qual agitava-se algo acinzentado e viscoso. Enguias. O menino indicou a porta. — É aqui — disse. Dei uma última olhada no céu. A lua se escondia de novo entre as nuvens e um véu de escuridão avançava do mar. Entrei.