O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 373

PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO DA L EITURA Deixei a velha capela ao anoitecer. Atravessei o campo prateado que ardia à luz da lua e retornei à trilha do arvoredo seguindo o rastro do canal no meio da escuridão, até avistar as luzes da Villa San Antonio ao longe e a cidadela de torreões e mansardas que rodeavam o lago. Ao chegar ao sanatório, não perdi tempo batendo na cancela. Pulei o muro e atravessei o jardim deslizando no escuro. Rodeei a casa até uma das entradas dos fundos. Estava fechada por dentro, mas não hesitei um segundo em dar com o cotovelo no vidro e quebrá-lo para alcançar a maçaneta. Entrei pelo corredor, ouvindo as vozes e os murmúrios, sentindo no ar o perfume de um caldo vindo da cozinha. Atravessei o andar até o quarto do fundo onde o bom doutor tinha trancafiado Cristina, sem dúvida com a fantasia de fazer dela a sua bela adormecida, eternamente mergulhada num limbo de medicamentos e correias. Estava certo de que encontraria a porta do quarto trancada, mas a maçaneta cedeu sob minha mão, que pulsava com a dor surda dos cortes. Empurrei a porta e entrei. A primeira coisa que percebi foi que podia ver meu próprio hálito flutuando diante do meu rosto. A segunda foi que o chão de cerâmica branca estava manchado de pegadas de sangue. A janela que dava para o jardim estava completamente aberta e as cortinas ondeavam ao vento. O leito estava vazio. Aproximei-me e peguei uma das correias com que o médico e seus enfermeiros tinham amarrado Cristina. Exibiam um corte limpo, como se fossem de papel. Fui para o jardim e vi, brilhando sobre a neve, um rastro de pegadas vermelhas que se afastavam até o muro. Segui o rastro até lá e apalpei a parede de pedra que cercava o jardim. Havia sangue nas pedras. Trepei e saltei do outro lado. As pegadas, erráticas, afastavam-se em direção ao povoado. Lembro que comecei a correr. Segui as marcas sobre a neve até o parque que rodeava o lago. A lua cheia ardia sobre a grande lâmina de gelo. Foi ali que a vi. Claudicava lentamente, penetrando no lago gelado, deixando um rastro de pegadas ensanguentadas às suas costas. A brisa agitava a camisola que envolvia seu corpo. Quando cheguei à margem, Cristina já tinha avançado mais de 20 metros em direção ao centro do lago. Gritei seu nome e parei. Virou lentamente e vi que sorria, enquanto uma teia de rachaduras ia se formando a seus pés. Saltei no gelo, sentindo a superfície gelada quebrar-se à minha passagem, e corri para ela. Cristina ficou imóvel, olhando para mim. Os raios sob seus pés aumentavam numa rosácea de capilares negros. O gelo cedia sob meus passos e caí de cara. — Eu te amo — disse ela. Arrastei-me até lá, mas a rede de fendas crescia sob minhas mãos e cercava Cristina. Apenas alguns metros nos separavam, quando ouvi o gelo se partir e ceder sob seus pés.