PDL – PROJETO DEMOCRATIZAÇÃO DA LEITURA
viam-se as montanhas brancas à distância e as grandes nuvens que deslizavam sobre o céu como monumentais cidades de vapor. Cheguei ao sanatório de Villa San Antonio pouco antes das nove da manhã. O Dr. Sanjuán me esperava no jardim com Cristina. Estavam sentados ao sol, e o médico segurava a mão de Cristina enquanto falava com ela. Ela só olhava para ele. Quando me viu atravessando o jardim, o doutor fez sinal para que me aproximasse. Tinha reservado uma cadeira para mim de frente para Cristina. Sentei e olhei para ela, seus olhos sobre os meus sem me ver.— Cristina, olhe quem está aqui— disse o médico. Peguei a mão de Cristina e aproximei-me dela.— Fale com ela— disse o médico. Concordei, perdido naquele olhar ausente, sem encontrar as palavras. O médico levantou e nos deixou a sós. Vi quando desapareceu no interior do sanatório, não sem antes dizer a uma das enfermeiras que não tirasse os olhos de cima de nós. Ignorei a presença da enfermeira e aproximei minha cadeira de Cristina. Afastei o cabelo de sua testa e ela sorriu.— Lembra de mim?— perguntei. Podia ver meu reflexo em seus olhos, mas não sabia se me via ou podia ouvir minha voz.
— O doutor me disse que vai se recuperar logo e poderemos voltar para casa. Para onde você quiser. Resolvi abandonar a casa da torre, e iremos para bem longe, como você queria. Onde ninguém nos conheça e ninguém se importe em saber quem somos nem de onde viemos.
Suas mãos estavam cobertas com luvas de lã, escondendo as bandagens que tinha nos braços. Havia perdido peso e linhas profundas marcavam sua pele, tinha os lábios partidos, e os olhos apagados e sem vida. Limitei-me a sorrir e acariciar seu rosto e sua testa, falando sem parar, contando como tinha sentido sua falta e como tinha procurado por ela em toda parte. Passamos umas duas horas ali, até que o médico voltou com uma enfermeira que a levou de volta para dentro. Fiquei ali sentado no jardim, sem saber aonde ir, até que o Dr. Sanjuán surgiu outra vez na porta. Aproximou-se e sentou a meu lado.
— Não falou uma palavra— disse eu.— Acho que nem se deu conta de que eu estava aqui...
— Está enganado, meu amigo— replicou.— Trata-se de um processo lento, mas posso garantir que sua presença a ajuda, e muito.
Fiz que sim para as esmolas e mentiras piedosas do médico.