O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Seite 361
PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO
DA
L EITURA
— Quero levá-la comigo.
O médico ergueu as sobrancelhas.
— Levá-la? Para onde?
— Para casa.
— Sr. Martín, permita que lhe fale com toda a franqueza. À parte o fato de que não é
parente direto nem, claro, o marido da paciente, o que é um simples requisito legal,
Cristina não está em condições de ir com ninguém para lugar nenhum.
— E está melhor aqui trancada, amarrada a uma cadeira e drogada? Não diga que
voltou a lhe propor casamento?
O médico me observou longamente, engolindo a ofensa que minhas palavras
certamente significavam.
— Sr. Martín, alegro-me de que esteja aqui, pois acredito que, juntos, vamos poder
ajudar Cristina. Penso que sua presença vai permitir que saia do lugar onde se refugiou.
Acredito nisso porque a única palavra que pronunciou nas últimas semanas foi seu nome.
Seja o que for que tenha lhe acontecido, acho que tem a ver com o senhor.
O médico me olhava como se esperasse algo de mim, algo que respondesse a todas
as perguntas.
— Pensei que tinha me abandonado — comecei. — Íamos partir em viagem,
abandonar tudo. Tinha saído um instante para pegar as passagens de trem e tomar uma
providência. Não estive fora mais do que 90 minutos. Quando voltei para casa, Cristina
tinha desaparecido.
— Aconteceu alguma coisa antes que ela fosse embora? Discutiram?
Mordi os lábios.
— Não diria que foi uma discussão.
— E diria o quê?
— Eu a surpreendi, remexendo nuns papéis relacionados a meu trabalho e penso que
ficou magoada com uma atitude que interpretou como desconfiança.
— Era algo importante?
— Não. Um simples manuscrito, um rascunho.
— Posso perguntar que tipo de manuscrito era?
Hesitei.
— Uma fábula.
— Para crianças?
— Digamos que era para uma audiência familiar.