O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 359
PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO
DA
L EITURA
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O Dr. Sanjuán me encontrou no restaurante do hotel do Lago, sentado diante do fogo
acompanhado de um prato que não tinha sido tocado. Não havia mais ninguém ali, exceto
uma mocinha que percorria as mesas desertas e lustrava com um pano os talheres
apoiados nas toalhas. Atrás das vidraças tinha anoitecido e a neve caía lentamente, como
pó de cristal azul. O médico se aproximou de minha mesa e sorriu.
— Imaginei que o encontraria aqui — disse. — Todos os forasteiros acabam aqui. Foi
aqui que passei minha primeira noite nesse povoado, dez anos atrás. Que quarto lhe
deram?
— Dizem que é o favorito dos recém-casados, com vista para o lago.
— Não acredite. É o que dizem de todos eles.
Uma vez fora do recinto do sanatório e sem o jaleco branco, o Dr. Sanjuán tinha uma
aparência mais relaxada e afável.
— Sem o uniforme, quase não o reconheceria — comentei.
— A medicina é como o exército. Sem hábito, não há monge — replicou. — E o
senhor, como vai?
— Estou bem. Já tive dias piores.
— Certo. Senti sua falta antes, quando voltei ao escritório para pegá-lo.
— Precisava de um pouco de ar.
— Entendo. Mas esperava que fosse se mostrar um pouco menos impressionável.
— Por quê?
— Porque preciso do senhor. Melhor dizendo, é Cristina quem precisa do senhor.
Engoli em seco.
— Deve estar pensando que sou um covarde — disse.
O doutor discordou.
— Há quanto tempo está assim?
— Semanas. Praticamente desde que chegou aqui. Foi piorando com o tempo.
— Tem consciência de onde está?
O doutor encolheu os ombros.
— É difícil saber.
— O que aconteceu?
O Dr. Sanjuán suspirou.