O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 284

PDL – PROJETO DEMOCRATIZAÇÃO DA LEITURA
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Um dedo de luz vaporosa caía do manto de nuvens e acendia a pintura vermelha da fachada da loja de artigos de magia na Rua Princesa. O estabelecimento ficava atrás de uma marquise de madeira lavrada. As vidraças da porta mal insinuavam os contornos de um interior sombrio e vestido com cortinados de veludo negro, que envolviam vitrines com máscaras e engenhos de gosto vitoriano, baralhos viciados e adagas trucadas, livros de magia e frascos de cristal polido que continham um arco-íris de líquidos com etiquetas em latim e engarrafados, provavelmente, ali mesmo em Albacete. A campainha da entrada anunciou minha presença. No fundo, havia um balcão vazio. Esperei alguns segundos, examinando a coleção de curiosidades do bazar. Estava procurando meu rosto num espelho que refletia toda a loja, exceto eu, quando percebi pelo rabo do olho uma figura miúda que surgia por trás da cortina do fundo da loja.
— Um truque interessante, não é mesmo?— disse o homenzinho de cabelo branco e olhar penetrante. Fiz que sim.— Como funciona?— Ainda não sei. Chegou há poucos dias de um fabricante de espelhos trucados de
Istambul. O criador chama de inversão refratária.— É um bom lembrete de que nada é o que parece— comentei.— Menos a magia. Em que posso ajudá-lo, cavalheiro?— Estou falando com o Sr. Damián Roures? O homenzinho concordou lentamente, sem pestanejar. Percebi que seus lábios desenhavam uma careta risonha que, como seu espelho, não era o que parecia. Seu olhar era frio e cauteloso.— Um amigo recomendou seu estabelecimento.— Posso perguntar quem teve a gentileza?— Ricardo Salvador. A pretensão de sorriso afável desapareceu de seu rosto.— Não sabia que ainda estava vivo. Nunca mais o vi em 25 anos.— E Irene Sabino? Roures suspirou, negando em silêncio. Rodeou o balcão e aproximou-se da porta.
Pendurou o cartaz de fechado e trancou à chave.