O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 265
PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO
DA
L EITURA
Percebi que a menção da viúva tinha turvado seu olhar e fiquei me perguntando o que
teria acontecido entre eles naqueles dias de infortúnio.
— Como está ela? — perguntou. — A Sra. Marlasca.
— Acho que sente sua falta — aventurei.
Salvador concordou, a ferocidade completamente domada.
— Faz muito tempo que não vou vê-la.
— Ela acha que você a culpa pelo que aconteceu. Acho que gostaria de vê-lo de novo,
embora tenha se passado tanto tempo.
— Talvez tenha razão. Talvez devesse visitá-la...
— Pode me dizer o que aconteceu?
Salvador recuperou a fisionomia severa e fez que sim.
— O que quer saber?
— A viúva Marlasca contou que você nunca aceitou a versão de que seu marido teria
tirado a própria vida e que tinha algumas suspeitas.
— Mais que suspeitas. Alguém já lhe contou como Marlasca morreu?
— Só sei que disseram que foi um acidente.
— Marlasca morreu afogado. Pelo menos é o que o relatório final da Chefatura dizia.
— Afogado como?
— Só há uma maneira de se afogar, mas logo voltaremos a isso. O curioso é o local.
— No mar?
Salvador sorriu. Era um sorriso negro e amargo como o café que começava a brotar.
Salvador aspirou o cheiro.
— Tem certeza de que quer mesmo ouvir essa história?
— Nunca estive tão seguro de nada em toda a minha vida. Estendeu uma xícara e
olhou-me de alto a baixo, analisando.
— Suponho que já foi visitar aquele filho da puta do Valera.
— Se está se referindo ao sócio de Marlasca, ele já morreu. Falei com o filho dele.
— Igualmente filho da puta, só que menos audacioso. Não sei o que lhe contou, mas
tenho certeza de que não disse que os dois conseguiram que me expulsassem da
corporação e que me transformasse num pária a quem não davam nem esmola.
— Temo que tenha esquecido de incluir isso em sua versão dos fatos —
— Não me espanta.
— Mas estava me contando como Marlasca se afogou.
concedi .