O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 263

PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO DA L EITURA 29 A Rua da Lleona, mais conhecida entre o pessoal local como Rua dos Tres Llits em honra ao famoso prostíbulo que hospedava, era um beco quase tão tenebroso quanto sua reputação. Começava nos arcos à sombra da praça Real e evoluía por uma viela úmida e alheia à luz do sol entre velhos edifícios empilhados uns sobre os outros e costurados por uma perpétua teia de aranha de cordas para estender roupa. Suas fachadas decrépitas se desfaziam em tons de ocre, e as lajes de pedra que cobriam o chão viviam banhadas de sangue na época dos pistoleiros. Utilizei-a mais de uma vez como cenário para minhas histórias de A Cidade dos Mortos e mesmo agora, deserta e esquecida, para mim continuava a ter cheiro de pólvora e intrigas. A vista daquele cenário sombrio, tudo indicava que a aposentadoria forçada do comissário Salvador não tinha sido muito generosa. O número 21 era um imóvel modesto encravado entre dois edifícios que o espremiam. O portão estava aberto e não era mais do que um poço de sombra do qual partia uma escada estreita e íngreme que subia em espiral. O chão estava encharcado e um líquido escuro e viscoso brotava entre as frestas das lajotas. Subi as escadas como foi possível, sem soltar o corrimão, mas sem confiar muito nele. Só havia uma porta por andar e, a julgar pelo aspecto da construção, não acreditava que algum daqueles apartamentos passasse dos 40 metros quadrados. Uma pequena clarabóia coroava o vão da escada e banhava os andares superiores com uma claridade suave. A porta do último andar ficava no final de um pequeno corredor. Fiquei surpreso ao encontrá-la aberta. Bati, mas não obtive resposta. A porta dava para uma sala pequena, na qual se viam uma cadeira, uma mesa e uma estante com livros e caixas de latão. Um combinado de cozinha e área de serviço ocupava a peça contígua. A única bênção que aquela cela oferecia era uma varanda que dava para o terraço. A porta da varanda também estava aberta e deixava passar uma brisa fresca que trazia o cheiro de comida e água sanitária dos telhados da cidade velha. — Alguém em casa? — chamei de novo. Como não obtive resposta, entrei até a porta da varanda e debrucei-me sobre o terraço. A selva de telhados, torres, caixas d'água, pára-raios e chaminés crescia em todas as direções. Não tinha dado um passo dentro do terraço, quando senti o toque do metal