O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 215
PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO
DA
L EITURA
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Anos de experiência escrevendo intrigas policiais tinham me proporcionado uma série
de princípios básicos com os quais começar uma investigação. Um deles pregava que
qualquer intriga medianamente sólida, inclusive as passionais, nasce e morre com cheiro
de dinheiro e de propriedade imobiliária. Saindo do umbráculo, fui para o cartório de
Registros de Propriedade na Rua do Consejo de Ciento e pedi para consultar os volumes
referentes à compra, venda e propriedade de minha casa. Os tomos da biblioteca do
Registro contêm quase tanta informação essencial sobre as realidades da vida quanto as
obras completas dos mais refinados filósofos, talvez até mais.
Comecei por consultar a seção que registrava o processo de aluguel, em meu nome,
do imóvel situado no número 30 da Rua Flassanders. Lá encontrei as indicações
necessárias para rastrear a história do imóvel antes que o Banco Hispano Colonial
assumisse a propriedade, em 1911, como parte de um processo de embargo contra a
família Marlasca que, ao que tudo indicava, tinha herdado a propriedade quando do
falecimento do dono.
Os documentos mencionavam um advogado chamado S. Valera, que atuou como
representante da família durante o processo. Um novo salto ao passado me permitiu que
encontrasse os dados correspondentes à compra do imóvel por parte de dom Diego
Marlasca Pongiluppi, em 1902, de um tal Barnabé Massot y Caballé. Anotei todos os dados
numa folha à parte, desde o nome do advogado e das partes envolvidas na transação até
as respectivas datas. Um dos funcionários avisou em voz alta que faltavam 15 minutos
para o cartório fechar. Preparei-me para ir embora, mas antes de fazê-lo tratei de consultar
o estado da propriedade da residência de Andreas Corelli no Parque Güell. Transcorridos
os 15 minutos, e sem sucesso em minha pesquisa, levantei os olhos do volume de
registros para fitar o olhar cinzento do funcionário. Era um sujeito descarnado e reluzente
de gomalina do bigode aos cabelos, que destilava aquela indiferença beligerante de quem
faz de seu emprego uma tribuna para dificultar a vida dos outros.
— Desculpe. Não consigo encontrar uma propriedade.
— Deve ser porque não existe ou porque você não sabe como procurar. Por hoje, já
encerramos.
Correspondi à manifestação de amabilidade e eficiência com o melhor dos meus
sorrisos.