O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 215

PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO DA L EITURA 18 Anos de experiência escrevendo intrigas policiais tinham me proporcionado uma série de princípios básicos com os quais começar uma investigação. Um deles pregava que qualquer intriga medianamente sólida, inclusive as passionais, nasce e morre com cheiro de dinheiro e de propriedade imobiliária. Saindo do umbráculo, fui para o cartório de Registros de Propriedade na Rua do Consejo de Ciento e pedi para consultar os volumes referentes à compra, venda e propriedade de minha casa. Os tomos da biblioteca do Registro contêm quase tanta informação essencial sobre as realidades da vida quanto as obras completas dos mais refinados filósofos, talvez até mais. Comecei por consultar a seção que registrava o processo de aluguel, em meu nome, do imóvel situado no número 30 da Rua Flassanders. Lá encontrei as indicações necessárias para rastrear a história do imóvel antes que o Banco Hispano Colonial assumisse a propriedade, em 1911, como parte de um processo de embargo contra a família Marlasca que, ao que tudo indicava, tinha herdado a propriedade quando do falecimento do dono. Os documentos mencionavam um advogado chamado S. Valera, que atuou como representante da família durante o processo. Um novo salto ao passado me permitiu que encontrasse os dados correspondentes à compra do imóvel por parte de dom Diego Marlasca Pongiluppi, em 1902, de um tal Barnabé Massot y Caballé. Anotei todos os dados numa folha à parte, desde o nome do advogado e das partes envolvidas na transação até as respectivas datas. Um dos funcionários avisou em voz alta que faltavam 15 minutos para o cartório fechar. Preparei-me para ir embora, mas antes de fazê-lo tratei de consultar o estado da propriedade da residência de Andreas Corelli no Parque Güell. Transcorridos os 15 minutos, e sem sucesso em minha pesquisa, levantei os olhos do volume de registros para fitar o olhar cinzento do funcionário. Era um sujeito descarnado e reluzente de gomalina do bigode aos cabelos, que destilava aquela indiferença beligerante de quem faz de seu emprego uma tribuna para dificultar a vida dos outros. — Desculpe. Não consigo encontrar uma propriedade. — Deve ser porque não existe ou porque você não sabe como procurar. Por hoje, já encerramos. Correspondi à manifestação de amabilidade e eficiência com o melhor dos meus sorrisos.